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13/02/2009 - 11:16

O falso poema de Drummond que circula na Internet

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Em meio à discussão sobre o BBB9, quinta-feira, aqui no blog, um leitor que assina Valdeir postou, a título de comentário, um longo texto em forma de poesia, intitulado “Recomeçar”, assinado por Carlos Drummond de Andrade. O texto começa assim: “Não importa onde você parou… em que momento da vida você cansou… Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo…”. Em outra passagem, lê-se: “Um novo curso… ou aquele velho desejo de aprender a pintar… desenhar… dominar o computador… ou qualquer outra coisa… Olha quanto desafio… quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te esperando”.

Algumas horas depois, ainda pegando fogo a discussão sobre o BBB, o leitor que assina Bruno enviou a seguinte mensagem: “Não consegui achar uma referência concreta, mas aposto a minha cabeça que o poema supracitado num dos comentários NÃO é do Drummond. Pelo amor de Deus, parem de disseminar textinhos toscos de auto-ajuda vagabunda como se fossem obra de grandes autores!!! E se o texto de fato for do Drummond (probabilidade ínfima), então ele escreveu coisa ruim também, porque este é sofrível. Mauricio, por favor, não deixe isso passar impune aqui. Propagação de ignorância é crime, e seu blog não é lugar pra isso.”

Estimulado por Bruno, resolvei investigar. A simples menção no Google a Carlos Drummond de Andrade e “Recomeçar” traz quase 27 mil citações. Há inúmeras versões do poema recitadas em vídeo, no You Tube, e em centenas de sites e blogs. Pesquisando mais, acabei chegando ao site “Meu Anjo”, mantido pelo programador Paulo Roberto Gaefke. Ali, é possível ler que o texto, na verdade, é de autoria do próprio Gaefke. Bem humorado, ele respondeu ao e-mail que enviei, em busca de um esclarecimento: “Drummond deve revirar na tumba ao ver o meu texto com o nome dele”, disse.

Autor de dois livros de poemas, publicados por conta própria, o programador mantém o site desde abril de 2000. Até 2002, assinava as suas mensagens apenas com um bordão – “eu acredito em você” – e o seu primeiro nome, Paulo. “Daí virou uma festa”, ele conta. “Cada um repassava acrescentando um ponto e diversas mensagens minhas (mais de 2 mil) estão por ai sem a devida paternidade… como ‘Revolução da Alma’, que atribuem a Aristóteles (sic), ‘Paciência’, atribuída ao Jabor, e a clássica ‘Recomeçar’ (que também é conhecida por ‘Faxina na Alma’)”.

Para surpresa de Gaefke, ao final do seu texto, em algum momento no ano de 2003, alguém acrescentou os versos “Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura” e assinou “Carlos Drummond de Andrade”. Tal citação foi entendida como se o texto inteiro fosse de Drummond, e se espalhou como praga pela Internet. Mas, lembra o verdadeiro autor do texto, nem esses versos são do poeta mineiro, mas de Fernando Pessoa (estão em “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro).

Conta Gaefke: “Quando eu pesquisei no Google a primeira vez, tomei um susto. Esse texto estava em mais de 50 mil sites com autoria de Drummond. E para provar que era meu foi uma briga…”. Registre-se que, pesquisando na Internet, encontrei várias mensagens de Gaefke em blogs e sites que publicaram o seu texto como sendo de Drummond, alertando os autores para o engano.

Encerro, então, este post com a reprodução do belo poema de Caeiro:

VII – Da Minha Aldeia
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe 
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos 
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Autor: - Categoria(s): Cultura, Internet Tags: , , , , , ,

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69 comentários para “O falso poema de Drummond que circula na Internet”

  1. Zelão disse:

    Aí seus manés ignorantes, já está na hora de parar de assistir esta “joça” de Bib Brother Brasil e começar a ler, afinal o que falta no brasileiro é cultura….e “classe”.

  2. Quem troca a leitura e a pesquisa em livros (incluindo enciclopédias) por “navegação” na “Grande Rede – Internet”, que todos sabemos ser terra de todo mundo e, portanto, terra de ninguém, corre o risco de ser enganado.

  3. Poeta disse:

    Palavras… só palavras. Se cabeludas ou não, pouco importa: todas se perderão no tempo. Ou ao vento.

  4. John disse:

    ” Oh pequena batata
    que se espalha pelo chão
    a infante enquanto dorme
    põe a mão no coração…
    Linda menina (o?) semeie as batatas da terra
    Então não haverá mais fome no mundo”

    seria de Wilde, Oscar?

  5. Ângela disse:

    Quando vi este poema em muitos sites sendo de Drummond fiquei despontada, não pelo seu “desvalor”, mas porque não tem a “cara” do Drummond. Vejo muitos textos também de Clarice Lispector. Coitada da Clarice… Cabe a nós, leitores de bons autores, saber fazer um diagnóstico preciso sobre a veracidade deles. Mas isso não é tão difícil não.

  6. Sérgio disse:

    Simplesmente lametável…

  7. Luiz Sérgio disse:

    O caso mais curioso foi a crônica “Quase”, atribuído erroneamente a Veríssimo. Ficou tão famoso que foi traduzido para o francês, com o título “Presquè” e mereceu um belíssimo texto do mestre, que faz uma crítica bem humorada sobre a internet e a divulgação indiscriminada de textos apócrifos, mas creditados a nomes conhecidos da literatura.

  8. Marcella disse:

    Zé Afonso!
    Especialmente para vc:

    lixo de avaliação, lixo de comentário e lixo de vc!

  9. J.Barros disse:

    Rebeca o caso em pauta não é nem a qualidade do texto e o uso indevido do nome de outro autor, você gostaria de ver um texto escrito e assinado com o seu nome? eu não gostaria, por mais estrito que fosse.

    A internet cabe tudo não ha pesquisa de quase nada que é postado qualquer um cria uma nova teoria tirada do nada, quase tudo é LENDA URBANA – agora a moda é o virtual já que tudo é virtual vamos continuar cada vez mais idiotas e acreditando em tudo que é postado.

    Eu sou J.Barros ou não? quantos de vocês são reais?

  10. Darcy Brito disse:

    Nunca achei que aquele poema tivesse o perfil do Drumont. É por isso que não podemos confiar em pesquisa de internet.

  11. Sacerdote disse:

    Não é porque o texto não é de Drummond que vamos ridicularizar o que outras pessoas escrevem. Cada um tem seu espaço, seu estilo, e cada um tem quem admire o que se escreve. Afinal, não é atoa que o texto rodou muito. Se fez tanto sucesso, tem lá seus motivos.
    Ele não é Drummond, mas é gente e está tentando.
    Pra falar de Drummond não precisa ridicularizar ninguém, pois a poesia de Drummond fala por si.
    Sacerdote.

  12. Naru disse:

    Bom, é muito triste ver tanta gente criticando assim um autor que nem tinha a real dimensão do que estava se passando, e se tivesse, o quê mais ele poderia fazer? A internet dá essa liberdade pras pessoas escreverem e postarem o que bem quiserem.

    Outro ponto é dizer que o texto é péssimo, ruim ou coisa do tipo, porque se fosse tudo isso de fato, não havia tanta questão em cima disso, além da propagação do mesmo em diversos sites.

    Portanto, deixemos o falso moralismo de lado e vamos encarar que ocorreu um mal entendido provocado pelos próprios leitores e que já foi devidamente explicado. Só isso e nada mais.

  13. Eros Dito disse:

    Vamos ler, meu povo. É gostoso e faz bem.

  14. Saci disse:

    “Vão todos às putas que os pariram!”

    (Shakespeare, London, 1584, em um momento de grande ira).

  15. Rosana disse:

    Caro Mauricio, fico feliz em ver que algumas pessoas conseguem ainda, diferenciar os verdadeiros autores das poesias, hoje com o computador é um tal de copiar e colar, principalmente no Orkut , e muito das vezes nem os citam deixando a enteder que foram eles proprios que o fizeram. Ai é só dar uma lidinha no perfil que vc ja percebe logo de cara o grau de intectualidade. Deixar de dar credito ao autor ou atribuir a outro e falta de leitura mesmo.

  16. Valdeir disse:

    Como é dificil lidar com gente ignorante. O poema é de Drumond, é lindo e se chama “Faxina na alma”.

  17. Valdeir disse:

    Aliás só postei numa discussão tão boba sob BBB, para saberem que há coisas inteligentes nessa vida

  18. Valdeir disse:

    Procurem no Google e vão achar várias referências ao poema.

  19. Aline Ferraz disse:

    Genial!
    Adorei o despertar da curiosidade nas pessoas.. pelo menos não é pra saber quem é o novo líder do BBB.

  20. Valdeir disse:

    Agora, falando sério, se o poema não é mesmo de Drumond, como afirma o repórter, fui enganado, não pela Internet, mas por uma pessoa que me presenteou há tempos. Também se o texto circula desde 2003, porque do alarde? Mas de qualquer maneira não difere de auto ajuda e indiferente de quem escreveu, é muito bonito. Pelo menos desviei a atenção de quem discute BBB.
    “Não sou nada. Nunca fui nada. Nunca poderei ser nada. A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Fernado Pessoa.

Os comentários do texto estão encerrados.

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