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Arquivo da Categoria Cultura

10/12/2009 - 10:46

A nova fase de Mano Brown

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A confirmação, nesta quinta-feira, de que Mano Brown sairá na capa da próxima “Rolling Stone” é a notícia do dia no meio musical brasileiro. Famoso pela aversão à mídia tradicional, que ele sempre enxergou como inimiga, o líder dos Racionais vive uma nova fase, como ele mesmo diz à revista, em frase destacada pela coluna de Mônica Bergamo, na “Folha”: “Não posso ser refém de nada. Nem do rap. Aquele Mano Brown virou sistema viciado”. Sobre este assunto, escrevi, em 23 de novembro, o texto abaixo, publicado originalmente no Último Segundo:

Mano Brown e Racionais ensaiam guinada “pop”

Os sinais já estavam no ar, mas se intensificaram nas últimas semanas. O Racionais MC’s, mais importante e respeitado grupo de hip hop brasileiro, prepara-se para lançar um novo CD no qual deixa de lado, em algumas músicas, a temática de cunho social e a agressividade nas letras que sempre caracterizaram o grupo.

Além de canções sobre a “vida loka” dos jovens da periferia envolvidos com a miséria e o crime, celebrizadas em CDs como “Sobrevivendo no Inferno” e “1000 Trutas 1000 Tretas”, o grupo agora volta-se também para outros interesses e parceiros.

O sinal mais evidente desta guinada “pop” já circula no You Tube. Chama-se “Mulher Elétrica”. Bem-humorada, a letra da música contém trechos assim: “Ela é preta na cor loira no cabelo, ela é uma hora e meia em frente ao espelho. Ela é… Ela é Naomi, Ela é Clara, é Nunes, é Donna Summer, Rosa, é Sônia, Ela é Tereza, Ela é Ana, Ela é Glória, Ela é bem Brasil, me engana que eu gosto ela tem tristeza balança o swing rara beleza, Ela é…Onde vai…? Mulher Elétrica Mulher Elétrica 3000 volts”.

Como tudo que diz respeito a Mano Brown e os demais músicos do grupo, há muito segredo envolvido em seus novos movimentos. Uma das novidades – talvez a que venha causar mais surpresa para os fãs – é o rumor que Mano Brown estará na capa da revista “Rolling Stone”, cuja próxima edição chega às bancas no dia 10 de dezembro.

O editor-chefe da revista, Ricardo Cruz, diz não poder confirmar a informação, mas o Último Segundo ouviu de pessoas próximas aos Racionais que está tudo certo –as fotos, inclusive, já foram feitas.

Desde que surgiu à frente dos Racionais, no início dos anos 90, Mano Brown mantém o compromisso de não falar com a chamada grande imprensa. Oriundo do Capão Redondo, na zona Sul de São Paulo, o músico deu raras entrevistas nestes últimos 15 anos, normalmente apenas para veículos alternativos.

Outra novidade sobre Brown é a sua aproximação com a Banda Black Rio. O famoso grupo de funk e soul music, surgido na década de 70, retomou suas atividades no final dos anos 90, liderado por William Magalhães, filho do fundador da banda, Oberdan Magalhães.

Na última sexta-feira 20, Dia da Consciência Negra, Brown cantou quatro músicas no show que a Black Rio fez na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, dentro das atividades do Seminário Internacional da Cultura Digital, um evento destinado a discutir políticas públicas para a área da comunicação.

Acompanhado do rapper Dom Pixote, Brown cantou “O Jogo é Hoje”, música feita por encomenda para a Nike e utilizada na trilha da promoção “Batalha das Quadras”. Originalmente um campeonato de futsal para jovens, no Rio e em São Paulo, realizado em 2008, “Batalha nas Quadras” gerou um CD promocional, produzido pelo músico Ice Blue, dos Racionais, com a presença de vários jovens artistas do hip hop.

A primeira faixa, que dá nome ao disco, intitula-se justamente “O Jogo é Hoje”, e é uma parceria entre Brown (que assina “MB”) e Pixote. A música fala da ansiedade antes de uma partida de futebol, e é outro sinal de mudança de foco das preocupações de Brown e seus colegas dos Racionais.

Chamado de “presidente” por William Magalhães, Brown vestia uma vistosa camisa pólo da Nike, com o logo da empresa estampado no peito – modelo idêntico ao que Pixote usava. Estava bem-humorado, à vontade e simpático – outra novidade para quem já viu algum show dos Racionais.

O Último Segundo ouviu de fontes ligadas à promoção do show que a Nike teria interesse em adquirir os direitos de “O Jogo é Hoje” para utilizá-la em outras campanhas da marca, mas a empresa nega. A Nike “adoraria”, nas palavras de um executivo, ter relações com Mano Brown, “assim como com Gisele Bundchen” e outros formadores de opinião deste quilate.

Em 2007, durante entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, Mano Brown travou um curioso diálogo com Ricardo Cruz, o editor da revista “Rolling Stone”, na qual reconhece que, para ele mesmo e para seus fãs, soa estranho utilizar roupas e tênis do fabricante americano.

Pergunta: Você conseguiu, Brown, fazer uma revolução interna no seu jeito de ser, de pensar? Você conseguiu lutar contra os seus, suas próprias contradições, seus próprios medos? Você consegue isso hoje?

Resposta: Na verdade, as contradições só acabam quando morre, né? Tipo, eu era um cara, hoje eu estou de Nike no pé, mas eu já xinguei a Nike muito por aí. Entendeu? Mas eu descobri também que a Adidas não me dá nada se ficar falando mal da Nike. Eu derrubo um e levanto a outra. A Adidas é dos alemães, não são nada. Estou de Nike, o KL Jay não usa Nike, vai ver o Nike que o Blue tá no pé? Entendeu? É contradição, Racionais é isso, é quatro caras, quatro mentes, quatro idéias, entendeu, meu? Eu sou o mais confuso dos quatro sou eu mesmo.

Autor: - Categoria(s): Cultura Tags: , ,
09/12/2009 - 10:16

“Cinquentinha” opta pelo riso fácil da caricatura

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cinquentinhaAguinaldo Silva é um dos mais bem-sucedidos autores da Rede Globo. Fã de “Tom & Jerry”, ele entende que o bom vilão, na tevê, deve ser sempre um canastrão. Como Tom. “Ele esmaga aquele ratinho mil vez por dia, prepara as armadilhas mais ardilosas, mas sempre leva a pior, e todo mundo morre de rir”, diz o autor em seu depoimento ao livro “Autores, Histórias da Teledramaturgia”.

“Cinquentinha”, a série em oito capítulos que estreou nesta terça-feira, não tem um vilão com essas características, mas quatro: são as três viúvas de Daniel (José Wilker), Lara (Susana Vieira), Mariana (Marília Gabriela) e Rejane (Betty Lago), além de Leonor (Maria Padilha), todas inimigas entre si.

Com direção-geral de Wolf Maia, parceiro de Aguinaldo Silva em outras aventuras, “Cinquentinha” adota o tom da caricatura, do humor sem sutileza, disposto a fazer o público rir de qualquer maneira. Tudo é exagerado, avacalhado, chapado – quase um programa estrelado por Didi Mocó.

Todos os bons temas sugeridos por Aguinaldo Silva se diluem, em meio ao clima adotado para contar a história. A atriz em decadência é uma piada ambulante, na interpretação exagerada (e sem jeito) de Susana Vieira. O mesmo vale para o conflito, tratado de forma grotesca, da avó Rejane (Betty Lago) com a neta, que está namorando um homem negro, morador da favela.

Mesmo uma ousadia de Aguinaldo Silva se perdeu, na estreia, soterrada pelo clima de avacalhação geral. A fotógrafa Mariana, cinquentona que só namora garotos de 18 anos, encontra na balada uma colega dos tempos em que ambas eram estagiárias no jornal. Leila (Ângela Vieira) acaba levando Mariana para casa (e para a cama), mas a noitada termina, de manhã, em forma de galhofa, com a personagem de Marília Gabriela fugindo da casa da amiga com as roupas nas mãos.

Aguinaldo Silva defende a idéia que o autor de televisão deve escrever para agradar ao público. “Você está fazendo novela para quê? Para conseguir audiência e agradar o telespectador. É para fazer sucesso, não é por outra razão. Então, é um absurdo se colocar contra o que o espectador quer”. Pano rápido.

Autor: - Categoria(s): Cultura, televisão Tags: , , , ,
04/12/2009 - 14:27

A encantadora vida dos personagens sem charme

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Proibido fumarNuma cena sem maior importância de “É Proibido Fumar”, Baby (Gloria Pires), a solitária protagonista da história, está dentro do elevador lotado do prédio em que mora, no bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Ela divide o acanhado ambiente com o síndico Pepe (Antonio Abujamra), seu filho Pablo e seu neto Diego.

Quem não conhece Pablo e Diego precisa ir aos créditos finais para saber que o primeiro é vivido pelo músico André Abujamra e o segundo é o garoto José Abujamra. São, como o leitor pode suspeitar, filho e neto do grande ator, que faz Pepe. E mais: André é ex-marido de Anna Muylaert, a diretora do filme, e José é filho de ambos.

Mais que uma ação entre amigos, essa reunião dentro do elevador diz muito do que Anna Muylaert pretendeu fazer e, com muito talento, alcançou neste seu segundo longa-metragem.

“É Proibido Fumar” é um filme pequeno e caloroso, um olhar muito carinhoso sobre a vida de dois personagens sem charme nenhum, narrado num registro próximo ao da comédia romântica, mas contido, quase sem tiques e exageros.

A trama está centrada no encontro de duas pessoas comuns, de classe média empobrecida, e suas vidinhas pouco empolgantes. Baby tem 40 anos, é solteira e dá aulas de violão no pequeno apartamento em que vive, seu único patrimônio, herança da mãe. Max (Paulo Miklos) é um músico de pouco sucesso, que gosta de Jorge Bem Jor, mas é obrigado a tocar samba em churrascaria para pagar o aluguel.

Max vai morar no apartamento vizinho ao de Baby e, assim, de uma hora para a outra, essas duas figuras cujas vidas não prometem nenhuma emoção maior vão começar a escrever uma história em comum.

O encontro dos dois personagens envolve amor, carinho e ciúme, mas não paixão. Parece ser a relação de duas pessoas maduras, que já viverem muitas coisas e, agora, controlam melhor seus sentimentos. O cigarro, que Baby fuma desesperadamente e Max abomina, é um elemento central na trama – o vilão que finge ser seu amigo – com inúmeras conotações possíveis.

“Durval Discos”, o filme de estreia de Anna Muylaert, já mostrava o seu bom olho para as miudezas do cotidiano de figuras meio fora do trilho, como o vendedor de LPs, vivido por Ary França, resistente à “modernidade”, no bairro de Pinheiros, também em transformação. “É Proibido Fumar” vai além, ao expor uma cineasta segura, madura e muito talentosa.

Só espero que o público supere a preguiça de ver apenas filmes brasileiros com cara e ritmo de novela da Globo e não deixe “É Proibido Fumar” passar despercebido. Uma boa reportagem sobre o filme, publicada nesta quinta-feira no Último Segundo, pode ser lida aqui.

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26/11/2009 - 15:17

Bob Dylan reclama das críticas ao seu CD de Natal

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Bob Dylan NatalO surpreendente “Christmas In The Heart’”, mais recente CD de Bob Dylan, deve chegar ao Brasil na primeira semana de dezembro. Recheado exclusivamente com canções de Natal (15, no total), que Dylan reinterpreta à sua maneira, o CD é um projeto de caráter beneficente, cujos royalties devidos ao músico serão destinados a diferentes entidades de combate à fome, nos Estados Unidos e na Europa. Segundo a Sony Music, o CD será vendido exclusivamente na Livraria Cultura.

Ao anunciar o projeto, em agosto, Dylan justificou: “É uma tragédia que 35 milhões de pessoas neste país (os EUA) – sendo 12 milhões de crianças – costumam ir para a cama com fome e acordem no dia seguinte sem saber quando vão comer novamente”.

Para promover o disco, Bob Dylan aparece num videoclipe, o que não fazia desde 1997, e deu uma única entrevista, ao crítico de rock e produtor Bill Flanagan. A íntegra da conversa está sendo distribuída pela Street News Service, um portal voltado à divulgação de notícias publicadas em jornais feitos por moradores de rua, como o “Ocas”, no Brasil.

No diálogo com Flanagan, Dylan fala sobre canções de Natal, diz o que gosta numa ceia (peru assado com purê de batatas e molho, além de couve) e explica o que o seduz na festa. É uma conversa sem grandes revelações, mas que ganha temperatura numa passagem, quando o entrevistador comenta o que os críticos andam dizendo do novo CD. Traduzo rápida e livremente as três perguntas e respostas em que Dylan discute o assunto.

Flanagan: Alguns críticos parecem não saber o que fazer com este disco. O Bloomberg News escreveu: “Algumas canções soam irônicas. Será que ele realmente deseja um Feliz Natal para você?” Há alguma ironia no conteúdo destas músicas?
Dylan: De jeito nenhum. Críticos como este estão olhando de fora para dentro. Eles não são, definitivamente, os fãs ou o público para quem eu toco. Eles não compreendem o meu trabalho, o que eu posso ou não posso – o sentido disso tudo. A esta altura, eles ainda não sabem o que fazer comigo

Flanagan: Derek Barker no “Independent” comparou este disco com o choque que você causou ao trocar o violão acústico pela guitarra elétrica (nos anos 60). Tantos artistas gravaram discos de Natal, de Bing Crosby a Huey Piano Smith. Por que é um choque se você faz a mesma coisa?
Dylan: Você vai ter que perguntar para eles.

Pergunta: O “Chicago Tribune” sentiu falta de mais irreverência no disco. Você não acha que eles erraram o alvo?
Resposta: Seguramente. Este é um comentário irresponsável. Já não há irreverência suficiente no mundo? Quem precisa mais? Especialmente no Natal.

A entrevista pode ser lida na íntegra aqui.

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24/11/2009 - 22:02

Crianças na cozinha

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New Yorker Food Edition 2
“E é assim que se faz um sanduíche de pasta de amendoim”

A edição anual dedicada à gastronomia da “New Yorker” (com data de 23 de novembro) abre com este cartoon de Tom Cheney sobre a aventura de duas crianças na cozinha. Uma das atrações do número é a ótima reportagem de John Colapinto sobre o guia Michelin. Pela primeira vez na história, o mítico guia deixou um repórter entrevistar e acompanhar o trabalho de um de seus inspetores. O texto sugere que a decisão de abrir este segredo deve-se à dificuldade do Michelin, cinco anos depois de entrar nos Estados Unidos, de se firmar no mercado de guias gastronômicos. A leitura da reportagem, com perdão da obviedade, é de dar água na boca – não apenas pela descrição da aventura gastronômica, mas pelo trabalho jornalístico.

Autor: - Categoria(s): Cultura, Internet Tags:
24/11/2009 - 11:45

Tentando entender “Lua Nova” e “Crepúsculo”

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Lua Nova 2Adolescentes, não leiam este texto. Tenho certeza que vocês vão se irritar. O que se segue é o esforço, possivelmente fracassado, de um “tiozinho” no sentido de entender este novo fenômeno da indústria do entretenimento.

No intervalo de quatro dias, assisti aos filmes “Crepúsculo” e “Lua Nova”, ambos recordistas de bilheteria, baseados na série de Stephenie Meyer, de quem nunca li, até hoje, uma única linha. Com muito atraso, reconheço, escolhi tentar recuperar o tempo perdido, mesmo que de forma superficial, por meio dos filmes.

Vi “Crepúsculo” na televisão, no Telecine, o que diminui muito do seu impacto, imagino. Mas me chamou a atenção o make-up exagerado de todos os vampiros da família Cullen, o jeito afetado e lento de falar e o fato de serem todos bonitos – homens e mulheres.

Registrei uma única piada ao longo de 122 minutos de filme – na cena em que Edward Cullen (Robert Pattinson) explica para Bella Swan (Kristen Stewart) que os vampiros de sua família não bebem sangue humano. “Nós nos vimos como vegetarianos. Seria como um ser humano que só comesse tofu: você nunca fica totalmente satisfeito”.

Também chama a atenção de cara que, com seus vampiros bonitinhos e modernos, “Crepúsculo” acaba com qualquer sutileza e sugestão que normalmente existe em filmes do gênero.

Assisti “Lua Nova” numa pré-estreia, à meia-noite, véspera do feriado, no Kinoplex Itaim. O cinema exibiu o filme em duas salas lotadas – uma terceira teve que cancelar a sessão porque a cópia não chegou.

Pattinson é o novo Leonardo di Caprio no imaginário das adolescentes. Provoca gritos histéricos por onde passa. Como escrevi no Último Segundo, nas telas, quando aparece, causa reações incomuns em cenas de cinema: barulho, murmúrios, suspiros e gritos se espalham pela sala.

O estranho visual – purpurina no rosto e lábios muito vermelhos – não atrapalha em nada. Ao contrário, parece torná-lo ainda mais atraente, talvez porque inofensivo, às meninas na platéia.

Lutando contra os seus instintos, no primeiro filme, Edward Cullen resiste a dar a mordida fatal em Bella e, ainda por cima, se apaixona pela jovem. Mas percebe, logo no início de “Lua Nova”, ao ver sangue nas mãos da menina, que sua índole (e a de seus familiares) é mais forte, o que coloca a vida da amada em risco.

Com um pé em “Romeu e Julieta” e outro em “Harry Potter”, Stephenie Meyer construiu sua saga em torno da mais essencial das questões para uma adolescente: a perda da virgindade. O tema é ótimo, de fato, e o seu potencial para arrebatar platéias femininas está mais do que comprovado pelos espetaculares resultados nas bilheterias.

LUa NovaAbandonada pelo vampiro Edward, Bella sofre horrores durante meses, até que se reaproxima de um amiguinho do primeiro capítulo, o índio Jacob Black (Taylor Lautner), agora sem camisa, encorpado e com segundas intenções.

Bella acaba sentindo uma certa queda por Jacob, mas vai sofrer outra decepção ao descobrir que o menino é, na verdade, um lobisomem! E lobisomens, como todo mundo sabe, não se dão com vampiros. É assim, literalmente, entre a cruz e a caldeirinha, mendigando um beijo aqui e outro ali, que Bella vai passar os intermináveis 130 minutos de “Lua Nova”.

Não acontece absolutamente nada no filme, o que pode explicar a implicância e resistência do público masculino, que transparece em comentários em blogs e fóruns sobre a saga. Bella também é cortejada nos filmes por um menino “normal”, nem vampiro nem lobisomem, mas não vê a menor graça nele. Seu sonho é ser mordida pelo vampiro galã. Para os meninos, trata-se de concorrência desleal.

Para piorar, a paciência e o recato do vampiro são realmente de outro mundo. O que pode ser tedioso para parte da plateia, parece encantador para a outra parte. À saída da sessão que assisti, às 2h20 da manhã, enquanto dezenas de adolescentes procuravam seus pais à saída do Kinoplex Itaim, muitas trocavam impressões sobre o filme. “Chorei muito na hora em que ele (Edward) falou que ia embora”, dizia uma. “Também chorei muito”, dizia a amiga. “Eu só lacrimejei”, respondeu a terceira.

Em tempo: sem nenhuma sutileza, num expediente que lembra as novelas da televisão, “Lua Nova” termina deixando pela metade uma conversa importante dos dois protagonistas. Só faltou exibir em seguida “cenas do próximo filme”. Que, a propósito, chama-se “Eclipse”, e tem estreia programada para 30 de junho de 2010.

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20/11/2009 - 13:10

Especial sobre Cazuza “reabilita” Ney Matogrosso

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O programa sobre Cazuza (1959-1990) exibido pela Globo nesta quinta-feira, dentro da série “Por Toda a Minha Vida”, fez justiça, finalmente, ao cantor Ney Matogrosso, vetado e suprimido do filme “Cazuza, O Tempo Não Para” (2004), uma produção da Globo Filmes, dirigida por Sandra Werneck e Walter Carvalho.

Ney aparece de várias formas no especial. Ele fala sobre o relacionamento amoroso de três meses que teve com Cazuza, dá um depoimento sobre a obra do músico (elege “O Tempo Não Para”, “Blues da Piedade” e “Brasil” como suas obras-primas) e faz parte da encenação de um episódio fundamental na trajetória do Barão Vermelho: a sua decisão de gravar a canção “Pro Dia Nascer Feliz”, que deu visibilidade, no início dos anos 80, à jovem banda de rock.

Apenas por isso, o especial sobre Cazuza já mereceria todos os elogios. Mas o programa, com direção de Gustavo Fernandez, roteiro de George Moura e Teresa Frota e colaboração de Fernanda Scalzo, vai além.

Com ótimos depoimentos, inclusive do colega de escola Pedro Bial, do parceiro Roberto Frejat e do pai João Araujo, que raramente fala sobre Cazuza, o programa apresenta histórias pouco conhecidas ou inéditas sobre a breve vida do músico.

Bial descreve o dia em que os dois, crianças, foram recebidos por Vinicius de Moraes na banheira de sua casa e convidados a beber um uísque. Com muita sinceridade, Frejat relata a briga que teve com Cazuza e como reagiu à decisão do cantor de deixar o Barão Vermelho: “Fiquei puto”, diz. João Araujo aparece numa encenação aos tapas com o filho adolescente e, em outro trecho, emociona-se ao falar do legado de Cazuza.

Lucinha Araujo, mãe de Cazuza e co-autora do livro “Só as Mães São Felizes”, que serviu de fonte para o filme “O Tempo Não Para”, também é ouvida no especial, mas seu papel na história parece ter sido redimensionado.

O especial apresenta os vários Cazuzas que a sua geração conheceu: o compositor genial, o boêmio inconveniente, o hedonista irresponsável, o rebelde indomável, o artista corajoso, o exagerado em tudo. Entende-se claramente, ao final do programa, porque ele faz tanta falta.

Autor: - Categoria(s): Cultura, televisão Tags: , , , , , , , ,
18/11/2009 - 11:59

Memórias de Neschling deixam dúvidas no ar

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neschlingDez meses depois de consumada em praça pública, a demissão do maestro John Neschling do comando da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo permanece como uma história ainda em aberto, a ser contada em todos os seus detalhes.

Os mais recentes capítulos desta novela foram escritos agora em novembro. Na quarta-feira 11, soube-se que Neschling venceu a ação trabalhista que moveu contra a Osesp, na qual cobrava direitos trabalhistas pelos 12 anos em que esteve à frente da orquestra como diretor artístico e regente titular, além de uma indenização por danos morais pela maneira como foi demitido. O juiz Ronald Luís de Oliveira determinou que a Osesp pague R$ 4,3 milhões a Neschling.

Por coincidência, na mesma semana desta vitória, chegava às livrarias “Música Mundana” (Rocco, 192 págs., R$ 29,50), o aguardado livro que Neschling prometeu escrever depois da demissão. Trata-se de um esboço de autobiografia, permeado com reflexões sobre a paixão do maestro pela música, mas muito pouca informação para quem esperava novidades sobre a sua saída da Osesp.

Numa passagem tocante, Neschling descreve como seus pais, imigrantes judeus europeus refugiados no Rio de Janeiro, o criaram segundo os ritos da religião católica, com direito a primeira comunhão, por medo que algum dia a perseguição aos judeus voltasse a ocorrer. Generoso, o maestro intitula este capítulo como “Eu teria feito o mesmo”.

Outro episódio curioso, que ajuda a compor o perfil do maestro, deu-se em 1979. Convidado a substituir Eleazar de Carvalho na classe de regência no curso de inverno do Festival de Campos de Jordão, Neschling acabou criando uma orquestra de alunos, logo transformada em Orquestra Juvenil do Estado de São Paulo.

Estávamos no governo Maluf, conta, e logo a orquestra começou a ser convocada para participar de eventos públicos, com a presença do governador. Certa vez, Neschling teria que levar os alunos ao Parque da Água Branca, para tocar diante da primeira-dama do Estado. Exigiu um caminhão fechado, para transporte dos instrumentos (que pertenciam aos próprios músicos) e um palco coberto, para o caso de chuva. Não foi atendido em nenhum dos dois pedidos.

Insisti para que se providenciasse uma cobertura para o palco. Nada. Esbaforida, uma assessora da primeira-dama voltou minutos depois. “Dona Silvia manda perguntar se esse concerto vai começar logo ou se o senhor vai continuar bancando a estrela”. Minha resposta mal-educada foi fatal para meu futuro paulista.

O episódio guarda muita semelhança com um fato que marcou a gestão de Neschling à frente da Osesp, 25 anos depois, mas não é narrado em “Música Mundana”. José Serra era prefeito de São Paulo, em novembro de 2005, quando a orquestra foi convidada a participar da primeira Virada Cultural. O maestro cancelou a apresentação da Osesp sob o argumento que não havia condições técnicas de uma boa exibição.

Neschling fala brevemente de outro grave desentendimento, ocorrido em 2007, quando Serra já era governador de São Paulo. Numa gravação realizada secretamente por músicos da orquestra, e divulgada no You Tube, Neschling chama-o de “um menino mimado”.

No livro, Neschling nem cita o nome de Serra. Escreve: “Havia desabafado e falado da pressão que vinha sofrendo do governo, reconhecendo no governador grandes capacidades administrativas, mas ressaltando seu caráter autoritário”.

O livro também não trata de outros episódios polêmicos que envolveram Neschling, como as suspeitas de fraude em um concurso de piano que promoveu e o seu desentendimento com Roberto Minczuk, então maestro assistente da orquestra.

“Música Mundana” é igualmente é econômico ao descrever o episódio que resultou na sua demissão, na sequência de uma entrevista que deu ao “Estado de S.Paulo” em dezembro de 2008, criticando o Conselho de Administração da orquestra, presidido por Fernando Henrique Cardoso. Neschling deixa no ar a sugestão que foi ingênuo, por não entender os sinais de que sua gestão não estava mais agradando ao conselho, e que teria sido traído, ao saber que sua sucessão foi tratada em reunião da qual não participou.

O maestro deixa escapar apenas uma ponta de mágoa, ao relatar que, depois da sua demissão, nunca mais voltou à Sala São Paulo. “Não pude nem ao menos despedir-me dos músicos e dos colegas”.

Se evita se aprofundar sobre esse rumoroso episódio, Neschling é generoso ao fazer uma reconstituição detalhada sobre como, em 1996, foi convidado a dirigir a Osesp e, então, em sequência, como convenceu o secretário de Cultura Marcos Mendonça a investir na modernização da orquestra e como Mario Covas comprou a idéia de investir R$ 44 milhões na transformação da antiga estação Julio Prestes na moderna Sala São Paulo.

“Assumi uma orquestra em decomposição”, escreve, antes de detalhar o processo de profissionalização que promoveu, ao longo do qual exigiu mais dedicação e qualidade dos músicos contratados. Num famoso episódio, que Neschling descreve, sete membros da orquestra questionaram a autoridade do maestro assistente e foram demitidos. “Introduzir uma nova cultura de trabalho na orquestra premiou-me com a fama de autoritário”, anota.

“Música Mundana” é, portanto, uma espécie de registro das qualidades que Neschling enxerga em si próprio, mas muito pouco esclarecedor a respeito dos problemas e defeitos que seus adversários vêem nele. É, enfim, um livro insuficiente para entender o conflito que levou à sua demissão e os meandros de uma orquestra financiada com recursos públicos. Aguardemos os novos capítulos da história.

Em tempo: em 30 de janeiro de 2009, publiquei no Último Segundo uma reportagem detalhada sobre o caso. Para quem não acompanhou os acontecimentos na ocasião, o texto pode ajudar a entender o contexto.

Autor: - Categoria(s): Cultura, Política Tags: , , , , , , , ,
13/11/2009 - 13:43

Uma alternativa a “2012”, o sensível “No Meu Lugar”

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No Meu Lugar Cena blogSei que a competição é difícil, mas imagino que nem todo mundo que planeja ir ao cinema neste final de semana sonha em ver “2012”. Para o público que busca uma alternativa ao arrasa-quarteirão da semana, minha sugestão é “No Meu Lugar”.

Trata-se do filme de estréia de Eduardo Valente, crítico de cinema, editor do site Cinética e curador de mostras e festivais. Valente já havia dirigido, com sucesso, três curtas-metragens (“Um Sol Alaranjado”, “Castanho” e “O Monstro”, todos disponíveis no portal Curtas) e agora, com apoio da VideoFilmes, de Walter Salles, conseguiu produzir “No Meu Lugar”.

O filme foi exibido em Cannes, em maio deste ano, e começa esta semana a procurar espaço no circuito comercial brasileiro. Trata-se, na minha opinião, de uma bem-sucedida tentativa de olhar para o problema da segurança no Rio de Janeiro fugindo dos conhecidos clichês. É um filme sensível, cuja ação se passa em três tempos diferentes e que exige do espectador mais do que uma contemplação distraída.

“Não tem uma bengala dizendo: agora você tem que sentir isso”, disse Valente ao Último Segundo. Para quem se interessar, recomendo a leitura da entrevista que fiz com o cineasta (Filme propõe olhar “desarmado” sobre a violência no Rio ), na qual ele deixa claro a sua visão de cinema e o que pretendeu com “No Meu Lugar”.

Autor: - Categoria(s): Cultura Tags:
06/11/2009 - 11:38

Prêmios e crítico sublinham prestígio da Mostra

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Mostra SeloNem a chuva, que prejudicou a cerimônia de entrega dos prêmios, afetou o ótimo humor de Leon Cakoff. Em conversa com o blog, o criador da Mostra de Cinema de São Paulo festejou o final da 33ª edição com duas boas notícias. A primeira, o fato de os dois filmes premiados pelo júri, “Voluntária Sexual”, do sul-coreano Kyong-duk Cho, e “Os Dispensáveis”, do alemão Andreas Arnstedt, terem estreado mundialmente na Mostra – um sinal do grande prestígio do evento.

Cakoff também ficou muito feliz com um artigo escrito pelo crítico Jean-Michel Frodon, integrante do júri da 33ª edição. Em texto publicado em seu blog na véspera da cerimônia de encerramento, Frodon falou do seu encanto pelo festival organizado por Leon Cakoff e Renata Almeida. E foi além.

Segundo Frodon, assim como foi uma voz de resistência ao regime militar, ao ser criada em 1977, a Mostra de Cinema de São Paulo hoje é vista por cineastas em todo o mundo como um espaço alternativo aos grandes estúdios de Hollywood e à Rede Globo – “os poderes que se pretendem hegemônicos no imaginário deste imenso país”.

Fazendo a ressalva que não está comparando a ditadura militar com as potências da mídia, Frodon observa: “Isso não exclui observar como, em situações diferentes, respostas variadas, mas motivadas pelo mesmo espírito, são possíveis e necessárias”.

Ex-diretor da mítica revista “Cahiers du Cinema”, Frodon lembra que, ao introduzir o voto popular na Mostra de Cinema durante o regime militar, “Cakoff reinventou algo que não existia mais em lugar algum no país: um espaço democrático”. Hoje, lembra ele, o desafio de um festival – e dos críticos de cinema – é outro:

“O papel (dos festivais e dos críticos) não é mais o de tornar acessível o que é raro ou inacessível, mas trabalhar no sentido de abrir os espíritos a outras formas, outros ritmos, outras histórias que os espectadores saturados de mensagens promocionais seguramente não vão procurar por conta própria, mesmo que estas obras estejam à distância de um clique.”

Para Frodon, a Mostra de São Paulo tem um papel fundamental “e mais necessário do que nunca” de preparar o terreno “para o reencontro entre o público e os filmes”.

Em sua passagem por São Paulo, o crítico causou polêmica ao afirmar, em entrevista à “Folha”, que o cinema brasileiro, de uma maneira geral, sucumbiu ao modelo comercial dominante. “É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria”, disse Frodon.

Autor: - Categoria(s): Cultura Tags: , , ,
05/11/2009 - 16:06

Verbete de Danilo Gentili na Wikipédia é alvo de disputa e manipulação

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Na manhã desta quinta-feira, o humorista Danilo Gentili anotou no Twitter, onde é seguido por 438 mil pessoas: “Wikipedia diz q sou ‘ator’. Apaguei pois não sou. Reescreveram. Algum idiota por ai acha q sabe + da minha vida do q eu.”

Intrigado com o assunto, entrei imediatamente no verbete dedicado a Gentili. Não constava mais qualquer referência ao problema apontado pelo humorista, mas algo me chamou a atenção. Na última linha do perfil, estava escrito: “PS: todo preto tem mania de perseguição”.

Dado o histórico de Gentili – há quatro meses causou polêmica ao fazer um comentário de cunho racista no Twitter –, imaginei que o tal “PS” foi acrescentado a seu perfil apenas por provocação. Imediatamente, anotei no Twitter: “Verbete de @danilogentili na Wikipedia termina com um PS: ‘Todo preto tem mania de perseguição’. Pegadinha?”.

Seis minutos depois, voltei ao perfil de Gentili na enciclopédia online e o “PS” já havia sido removido. No entanto, vários internautas me mandaram cópias da página onde aparece a frase. Numa prova evidente de como os perfis na Wikipédia são alvo de disputa, @ALuizCosta verificou: “O verbete sobre Danilo Gentili teve 35 edições e contraedições nos últimos 2 dias”, enviando o link que mostra esta estranha movimentação.

O episódio em si não é tão importante, mas reforça o justo coro daqueles que enxergam a Wikipédia com cautela e ceticismo. Trata-se de uma ferramenta útil, mas que não deve ser usada como fonte única nem última de informação.

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05/11/2009 - 15:43

Apenas três decepções

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Mostra SeloA Mostra está chegando ao fim e é hora de começar a fazer alguns balanços. O primeiro que farei aqui trata das poucas decepções que tive. Dos quase 30 filmes que assisti, apenas três não me agradaram. Aviso logo que entramos aqui num terreno de alta subjetividade já que a decepção está sempre relacionada a uma expectativa prévia, construída com base em fatos objetivos, mas também, e sobretudo, em idealizações.

woodstockAconteceu em Woodstock”, de Ang Lee, encabeça a minha lista. O filme é baseado nas memórias de Eliot Tiber, o jovem empreendedor responsável por levar o lendário concerto de Woodstock, em 1969, para a pequena cidade de Bethel, onde sua família mantinha um hotel decadente.

Ang Lee vislumbrou nas memórias de Tiber uma oportunidade de recontar uma história muito conhecida – a celebração hippie de Woodstock – pela ótica de um jovem tímido, dominado pela mãe, que vive aqueles dias como a oportunidade de renascer. É um tema que aparece em outros filmes de Ang Lee (“Banquete de Casamento”, “Comer, Beber, Viver” e “O Segredo de Brokeback Mountain”), mas sem a mesma força.

A história de Eliot Tiber claramente não tem impacto suficiente para segurar “Aconteceu em Woodstock” e o filme acaba resultando leve, superficial, com clima de Sessão da Tarde.

Soul KitchenSoul Kitchen” apresenta como maior credencial o fato de ser dirigido pelo cineasta alemão de origem turca Fatih Akin, figura conhecida na Mostra por “Contra a Parede”, “Do Outro Lado” e “The Sound of Istambul”.

À diferença dos filmes anteriores, “Soul Kitchen” é uma comédia rasgada. Ou melhor, esforça-se em nos fazer rir com as aventuras do atrapalhado Zinos, um dono de restaurante que faz tudo errado – no trabalho, com a namorada, com os amigos e com o irmão. Apesar de alguns bons achados, Akin opta pela caricatura e o escracho, a meu ver, as formas mais fáceis de provocar risos.

cabeça a premioCabeça a Prêmio” assinala a estreia do excelente ator Marco Ricca como diretor de cinema. O filme se baseia num thriller de Marçal Aquino, publicado em 2003. Conta as histórias cruzadas de diferentes personagens numa área do “faroeste” brasileiro – um piloto de avião, um fazendeiro traficante, sua filha e dois matadores profissionais.

Construído com habilidade e talento, o livro de Aquino se lê de um fôlego. Lembro que escrevi na ocasião que “Cabeça a Prêmio” parecia pronto para ser levado às telas. O filme de Ricca, no entanto, desidrata esta pulsão do romance, optando por um olhar mais reflexivo, em busca, talvez, da “verdade” por trás daqueles estranhos personagens.

O elenco escalado está à altura da ambição. Ótimos atores, como o argentino Daniel Hendler (no papel do piloto), Fulvio Stefanini (como o chefe mafioso), Otavio Muller (seu irmão), Eduardo Moscovis e Cassio Gabus Mendes (como matadores) encaram o desafio de dar vida ao faroeste caboclo descrito por Aquino. O resultado, porém, é irregular. O que “Cabeça a Prêmio”, o filme, perde em ritmo não compensa em “densidade”, apesar desta constelação em cena. Ricca mostra que tem boa mão para dirigir, mas talvez tenha sido ambicioso demais na estreia.

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03/11/2009 - 12:07

Salve! Dois filmes brasileiros muito acima da média

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Mostra SeloA indústria cinematográfica nacional comemora 2009 como o ano em que o mercado dará um salto próximo a 20%. Devemos este crescimento às comédias (comédias?) “Se Eu Fosse Você 2”, “O Divã”, “A Mulher Invisível” e “Os Normais”, que arrebentaram nas bilheterias.

Não foi um ano, porém, de emoções fortes para quem aprecia cinema de qualidade. Cada vez mais formatado de acordo com as exigências do mercado, o cinema brasileiro tem surpreendido pouco o público mais exigente.

Integrante do júri da 33ª Mostra de Cinema de São Paulo, o crítico francês Jean-Michel Frodon expressou esta decepção com uma frase de impacto: “É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria”.

A declaração de Frodon, em entrevista à “Folha”, causou um certo mal-estar, por dois motivos: 1) partiu de um estrangeiro, e não de um brasileiro; 2) e é possível que ele não conheça tão bem a produção nacional para fazer um julgamento deste quilate. Na minha opinião, o ex-diretor da revista “Cahiers du Cinema” pode ter cometido injustiças, mas acertou o tiro no alvo.

É evidente que há exceções, e a própria Mostra de São Paulo está aí para ajudar Frodon a matizar as suas críticas. Dois filmes, em particular, merecem ser vistos com atenção por quem espera mais do que comédias com jeitão de novela das 7 no cinema.

os famosos e os duendes“Os Famosos e os Duendes da Morte” é o primeiro longa-metragem de Esmir Filho. O cineasta tem 27 anos e ficou muito famoso ao dirigir “Tapa na Pantera”, um pequeno filme com a atriz Maria Alice Vergueiro no papel de garota-propaganda das qualidades da canabis.

Ganhador do principal prêmio no Festival do Rio, há menos de um mês, “Os Famosos e os Duendes da Morte” se passa numa cidadezinha de colonização alemã, no interior do Rio Grande do Sul, e descreve o sofrido rito de passagem de um adolescente inquieto e angustiado. Neste “cu do mundo”, como diz um dos protagonistas, não há nada para fazer, mas o menino encontra, pelo MSN e pela Web, canais de comunicação e expressão.

Fotografia, roteiro, direção de atores, tudo contribui para que o espectador embarque na viagem do protagonista de “Os Famosos e os Duendes da Morte”, no ritmo dele. Com sensibilidade, Esmir Filho realizou um filme intimista, poético, misterioso, na contracorrente dos filmes sobre adolescentes, que os tratam ou como espertinhos demais ou retardados.

Com distribuição já assegurada, o filme deve chegar ao mercado em 2010. Nesta terça-feira, há uma última sessão programada na Mostra, às 19h40, no Espaço Unibanco Pompéia. Mais informações no site da Mostra.

viajo porque precisoO outro ótimo filme brasileiro exibido na Mostra é “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”. Neste caso, a surpresa é menor porque os seus diretores, Marcelo Gomes e Karin Ainouz, já vem mostrando, há alguns anos, trabalho de qualidade e inventividade. Gomes é diretor de “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005) e Ainouz já fez “Madame Satã” (2002) e “O Céu de Suely” (2006).

Neste novo filme, com título atraente, um geólogo percorre o sertão do Ceará e de Pernambuco fazendo pesquisa para uma futura obra de transposição de águas. No ritmo da paisagem árida que encontra, do olhar das famílias miseráveis que perderão suas casas e do sorriso desdentado das prostitutas que vivem à beira da estrada, o geólogo vai narrando as suas impressões e, aos poucos, as suas dores.

Com trilha sonora que reúne o melhor da música popular brega brasileira, fotografia magnífica e uma estrutura narrativa surpreendente, “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” confirma, mais uma vez, que a nova geração de cineastas do Nordeste (da qual faz parte, também, Sergio Machado, diretor de “Cidade Baixa”) encontrou o seu lugar no cinema brasileiro atual – bem longe da mesmice e da obviedade.

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31/10/2009 - 13:47

Os temas universais do paulistano Ugo Giorgetti

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Mostra SeloParticipei há alguns meses da gravação de um programa de televisão, “Sala de Cinema”, cujo entrevistado era o cineasta Ugo Giorgetti. Exibido no SescTV, o programa é uma espécie de talk-show, comandado por Miguel de Almeida, com a participação de alguns convidados, que fazem perguntas para o entrevistado.

ugo giiorgettiAo longo da entrevista, Almeida fez várias perguntas a Giorgetti relacionadas ao universo paulista de seus filmes – “Jogo Duro”, “A Festa”, “Sábado”, “O Príncipe” e mesmo os dois “Boleiros”. Esta é uma questão recorrente e, mais uma vez, tive a oportunidade de ver como incomoda a Giorgetti ser rotulado como “cineasta paulista”.

Apesar de ambientados sempre em São Paulo, e a cidade ser um elemento central em seus filmes, Giorgetti entende, com toda a razão, que vê-lo como “cineasta paulista” limita, e muito, o alcance de sua obra.

Giorgetti sempre argumenta que São Paulo está presente em seus filmes porque é nesta cidade que nasceu, foi criado e vive, mas os temas de seu cinema são universais. A exibição de “Solo” e “Paredes Nuas”, seus filmes mais recentes, confirma isso, mais uma vez.

Como explicou em entrevista ao Último Segundo (Ugo Giorgetti filma os dilemas da sociedade do prazer), “Paredes Nuas” trata de um fenômeno relativamente recente, as irresistíveis seduções oferecidas pelo mercado de consumo, e “Solo” encara um tema mais que universal, a solidão de um idoso numa grande metrópole.

SoloAmbos os filmes se passam em São Paulo. Em “Solo”, o emocionante monólogo interpretado por Antonio Abujamra, a cidade aparece especialmente, nas lembranças do personagem, na transformação dos bairros em que ele viveu e na sua incapacidade de se adaptar aos tempos modernos. Isso faz de “Solo” um filme paulista? Lógico que não. A cidade é apenas a aldeia de Giorgetti a serviço de uma narrativa capaz de comover qualquer pessoa, em qualquer lugar.

“Solo” tem sessões no sábado (31), às 19h10; no Unibanco Arteplex, na segunda-feira (2/11), às 13hs, no Unibanco Arteplex; e na terça, às 18h20, no Espaço Unibanco Pompéia. Mais informações sobre o filme no site da Mostra.

“Paredes Nuas” tem ainda apenas uma sessão, neste sábado (31), às 17h20, no Unibanco Aretplex. Mais informações, aqui.

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31/10/2009 - 12:44

Amor nos tempos do fascismo: a saga da mulher de Mussolini

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Mostra SeloBenito Mussolini (1883-1945) dirigiu a Itália entre 1922 e 1943. Sob a proteção dos “camisas negras”, sua milícia, e do Partido Fascista, que fundou, instaurou um regime autoritário, promovendo o culto fanático à sua personalidade e a perseguição aos inimigos políticos. Aliado da Alemanha de Hitler na Segunda Guerra Mundial, levou o país à ruína.

Ao mesmo tempo, com a ajuda da propaganda oficial, Mussolini conseguiu cultivar a imagem de “bom homem”. Foi casado com Rachele Guidi, com quem teve quatro filhos. Sempre foi descrito como pai carinhoso, compreensivo, uma pessoal gentil, amigo inclusive de vários judeus.

Ida_DalserO perfil do “Duce” ganhou novos contornos com a publicação, em 2005, de “A Mulher de Mussolini”. Sempre se soube que o líder fascista havia tido um relacionamento sério antes da sua união com Rachele Guidi, mas o jornalista Marco Zeni, ao reconstituir o caso em detalhes, documentou uma histórica trágica.

Ida Dalser (1880-1937) e Mussolini viveram mais que uma breve paixão, a partir de 1909. Esteticista, formada em Paris, Ida mantinha um salão em Milão, a mesma cidade onde Mussolini atuava como jornalista político no socialista “Avanti”. Em 1915, nasceu Benito Albino Mussolini, filho do casal, reconhecido pelo pai em documentos que Zeni encontrou.

Com a ajuda financeira de Ida, Mussolini fundou em 1914 o jornal “Il Popolo d´Italia”, com o qual liderou uma campanha pela entrada do País na Primeira Guerra Mundial, ao lado da França e da Inglaterra, e contra os alemães. Mais tarde, depois que romperam, a esteticista declarou ter testemunhado Mussolini receber dinheiro do governo francês para defender a tese da entrada da Itália da guerra em seu jornal.

VincerePor razões não muito bem esclarecidas, a partir de 1915, Mussolini afasta-se de Ida Dalser e aproxima-se de Rachele Guidi. No ano seguinte, nasce o primeiro dos quatro filhos que terá com a mulher.

Ida não se conforma com a separação e vai lutar, até o fim, para ser reconhecida como a primeira mulher de Mussolini e mãe de seu primogênito. Apesar de garantir ter se casado oficialmente com ele, este documento nunca foi encontrado. Mas vários outros documentos, cartas e bilhetes localizados por Zeni atestam a veracidade da história.

No poder, Mussolini dá início a um esforço para apagar todos os registros de sua relação com Ida. Com a ajuda dos aliados e a complacência dos que o temiam, consegue separar a moça do filho e interná-la num hospício. Sua saga é terrível, bem como a do primogênito do “Duce”.

É essa história que o experiente Marco Bellocchio conta, à sua maneira, no ótimo “Vincere” (Vencer), apresentado pela primeira vez em Cannes, este ano, e que está em exibição da Mostra de Cinema de São Paulo. Com a bela Giovanna Mezzogiorno no papel de Ida e Filippo Timi como o jovem Mussolini (foto acima), o filme descreve em detalhes o apaixonado romance entre os dois e a posterior perseguição que Ida sofrerá.

Com muita habilidade, Bellocchio equilibra a narrativa entre a trajetória pessoal de Ida e o pano de fundo histórico – a militância socialista e anticlerical do jovem Mussolini, sua ascensão política, o acordo que estabelece com a Igreja e a aliança com Hitler.

A certa altura, um psiquiatra tenta ajudar a mulher e explica como ela deve se comportar no hospício em que está internada. “Não fale a verdade, interprete”, ele ensina. É o único jeito de sobreviver no regime fascista, diz. Mas Ida não aceita o conselho.

“Vencer” tem ainda três sessões na Mostra, neste sábado, às 19h20, no Espaço Unibanco Pompéia; domingo (1/11), às 22h, no Unibanco Artplex; e quarta-feira, às 19h10, no HSBC Belas Artes. Mais informações no site da Mostra.

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