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18/11/2009 - 11:59

Memórias de Neschling deixam dúvidas no ar

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neschlingDez meses depois de consumada em praça pública, a demissão do maestro John Neschling do comando da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo permanece como uma história ainda em aberto, a ser contada em todos os seus detalhes.

Os mais recentes capítulos desta novela foram escritos agora em novembro. Na quarta-feira 11, soube-se que Neschling venceu a ação trabalhista que moveu contra a Osesp, na qual cobrava direitos trabalhistas pelos 12 anos em que esteve à frente da orquestra como diretor artístico e regente titular, além de uma indenização por danos morais pela maneira como foi demitido. O juiz Ronald Luís de Oliveira determinou que a Osesp pague R$ 4,3 milhões a Neschling.

Por coincidência, na mesma semana desta vitória, chegava às livrarias “Música Mundana” (Rocco, 192 págs., R$ 29,50), o aguardado livro que Neschling prometeu escrever depois da demissão. Trata-se de um esboço de autobiografia, permeado com reflexões sobre a paixão do maestro pela música, mas muito pouca informação para quem esperava novidades sobre a sua saída da Osesp.

Numa passagem tocante, Neschling descreve como seus pais, imigrantes judeus europeus refugiados no Rio de Janeiro, o criaram segundo os ritos da religião católica, com direito a primeira comunhão, por medo que algum dia a perseguição aos judeus voltasse a ocorrer. Generoso, o maestro intitula este capítulo como “Eu teria feito o mesmo”.

Outro episódio curioso, que ajuda a compor o perfil do maestro, deu-se em 1979. Convidado a substituir Eleazar de Carvalho na classe de regência no curso de inverno do Festival de Campos de Jordão, Neschling acabou criando uma orquestra de alunos, logo transformada em Orquestra Juvenil do Estado de São Paulo.

Estávamos no governo Maluf, conta, e logo a orquestra começou a ser convocada para participar de eventos públicos, com a presença do governador. Certa vez, Neschling teria que levar os alunos ao Parque da Água Branca, para tocar diante da primeira-dama do Estado. Exigiu um caminhão fechado, para transporte dos instrumentos (que pertenciam aos próprios músicos) e um palco coberto, para o caso de chuva. Não foi atendido em nenhum dos dois pedidos.

Insisti para que se providenciasse uma cobertura para o palco. Nada. Esbaforida, uma assessora da primeira-dama voltou minutos depois. “Dona Silvia manda perguntar se esse concerto vai começar logo ou se o senhor vai continuar bancando a estrela”. Minha resposta mal-educada foi fatal para meu futuro paulista.

O episódio guarda muita semelhança com um fato que marcou a gestão de Neschling à frente da Osesp, 25 anos depois, mas não é narrado em “Música Mundana”. José Serra era prefeito de São Paulo, em novembro de 2005, quando a orquestra foi convidada a participar da primeira Virada Cultural. O maestro cancelou a apresentação da Osesp sob o argumento que não havia condições técnicas de uma boa exibição.

Neschling fala brevemente de outro grave desentendimento, ocorrido em 2007, quando Serra já era governador de São Paulo. Numa gravação realizada secretamente por músicos da orquestra, e divulgada no You Tube, Neschling chama-o de “um menino mimado”.

No livro, Neschling nem cita o nome de Serra. Escreve: “Havia desabafado e falado da pressão que vinha sofrendo do governo, reconhecendo no governador grandes capacidades administrativas, mas ressaltando seu caráter autoritário”.

O livro também não trata de outros episódios polêmicos que envolveram Neschling, como as suspeitas de fraude em um concurso de piano que promoveu e o seu desentendimento com Roberto Minczuk, então maestro assistente da orquestra.

“Música Mundana” é igualmente é econômico ao descrever o episódio que resultou na sua demissão, na sequência de uma entrevista que deu ao “Estado de S.Paulo” em dezembro de 2008, criticando o Conselho de Administração da orquestra, presidido por Fernando Henrique Cardoso. Neschling deixa no ar a sugestão que foi ingênuo, por não entender os sinais de que sua gestão não estava mais agradando ao conselho, e que teria sido traído, ao saber que sua sucessão foi tratada em reunião da qual não participou.

O maestro deixa escapar apenas uma ponta de mágoa, ao relatar que, depois da sua demissão, nunca mais voltou à Sala São Paulo. “Não pude nem ao menos despedir-me dos músicos e dos colegas”.

Se evita se aprofundar sobre esse rumoroso episódio, Neschling é generoso ao fazer uma reconstituição detalhada sobre como, em 1996, foi convidado a dirigir a Osesp e, então, em sequência, como convenceu o secretário de Cultura Marcos Mendonça a investir na modernização da orquestra e como Mario Covas comprou a idéia de investir R$ 44 milhões na transformação da antiga estação Julio Prestes na moderna Sala São Paulo.

“Assumi uma orquestra em decomposição”, escreve, antes de detalhar o processo de profissionalização que promoveu, ao longo do qual exigiu mais dedicação e qualidade dos músicos contratados. Num famoso episódio, que Neschling descreve, sete membros da orquestra questionaram a autoridade do maestro assistente e foram demitidos. “Introduzir uma nova cultura de trabalho na orquestra premiou-me com a fama de autoritário”, anota.

“Música Mundana” é, portanto, uma espécie de registro das qualidades que Neschling enxerga em si próprio, mas muito pouco esclarecedor a respeito dos problemas e defeitos que seus adversários vêem nele. É, enfim, um livro insuficiente para entender o conflito que levou à sua demissão e os meandros de uma orquestra financiada com recursos públicos. Aguardemos os novos capítulos da história.

Em tempo: em 30 de janeiro de 2009, publiquei no Último Segundo uma reportagem detalhada sobre o caso. Para quem não acompanhou os acontecimentos na ocasião, o texto pode ajudar a entender o contexto.

Autor: - Categoria(s): Cultura, Política Tags: , , , , , , , ,
07/10/2008 - 12:17

Uma crônica: ações em queda e um taxista desesperado

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Segunda-feira, 12h30. As ações na Bovespa estão derretendo. Chamo um táxi para me levar à Bolsa de Valores no centro de São Paulo. Dia feio, chuvoso. Quando desço para pegar o táxi descubro que ele, gentilmente, sem que tivesse sido solicitado, entrou na garagem, para eu não me molhar. Seguimos para a Bolsa, conversando amenidades. Reclamo que a cooperativa onde ele trabalha demorou para enviar um táxi e ele defende a empresa dizendo que a culpa é da chuva, que atrapalha o trânsito e dificulta o deslocamento dos táxis. Mudamos de assunto. Falo que estou indo fazer uma reportagem sobre a crise no mercado de ações, mas ele não se interessa muito. Conversamos, então, sobre GPS – e esse assunto o anima. Ele me conta que a cooperativa onde trabalha vai instalar um equipamento moderno em todos os carros, o que vai facilitar muito o serviço. O sistema vai permitir localizar a posição exata de cada taxista no momento em que ocorrer uma chamada. Se o cara recusar uma corrida, vai ter que se explicar, me diz. Passamos pela Avenida Paulista e começamos a descer a Consolação em direção à Bolsa quando toca o seu celular. Percebo que a notícia que ele recebe é grave. Desliga abalado e me conta. Era o irmão de sua namorada, informando que ela teve uma convulsão no trabalho. Ele me conta que a namorada sofre de epilepsia. Pergunto se ela não toma remédio. Ele diz: esse é o problema. Ela não gosta de tomar o remédio, pois ele é incompatível com o uso de bebidas alcoólicas. Prefere ir na balada, lamenta. O taxista telefona para o trabalho da namorada. Informa ao colega dela que está indo para lá, para buscá-la e levá-la ao médico. Em seguida, ensina como o rapaz deve proceder neste momento de crise. Coloca ela deitada de lado, explica. Toma cuidado para ela não enrolar a língua nem engolir a baba. Limpa a babinha dela, diz, recorrendo ao diminutivo, como se estivesse falando de um bebê. Ele desliga o telefone e pede desculpas. Digo que não há motivos para desculpas e falo que ele pode me deixar no caminho, em qualquer lugar. Mas estamos realmente perto e ele diz que vai me deixar ao lado da Bolsa. De lá, em dez minutos, me informa, estará no escritório onde a namorada trabalha. Vou chamar ela na chincha, ele me diz. Se for o caso, eu também paro de beber na balada. Podemos ir na balada e não beber. Pergunto quantos anos ele tem. 24. Esqueci de perguntar o seu nome. Pago o táxi, caminho 100 metros e entro na Bolsa. As ações estão derretendo. É a maior crise em muito tempo, talvez a maior crise de todos os tempos. Enquanto apurava a história para escrever uma reportagem, não pensei mais nele. Hoje, terça-feira, as ações continuam em queda, mas eu queria realmente saber o que aconteceu com o taxista e a sua namorada.

Autor: - Categoria(s): Crônica Tags: , ,
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