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29/11/2009 - 13:19

Como “reencenar” fatos reais em documentários?

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SP Sob Ataque iG 1A exibição neste domingo, às 20h, no Discovery Channel, de “São Paulo Sob Ataque” é um bom pretexto para discutir um aspecto da produção de documentários para a televisão que ainda causa incômodo a muitos espectadores. Refiro-me ao recurso da “reencenação” de episódios de história sobre os quais não há imagens reais disponíveis, mas que são fundamentais para a compreensão da trama.

A série da Globo “Por Toda a Minha Vida” faz muito uso deste recurso, assim como diferentes programas policiais exibidos na tevê fechada, tipo “Medical Detectives” e outros do gênero.

Documentários, de uma maneira geral, contam com muito menos recursos do que filmes de ficção. Por esse motivo, as cenas de reconstituição nestes programas são pobres e quase sempre passam a impressão de serem artificiais e mal encaixadas no ritmo da história que está sendo contada. Pior, muitas vezes quebram o ritmo, ao produzirem aquele efeito de estranhamento no espectador, que percebe estar assistindo a uma recriação tosca da história.

“São Paulo Sob Ataque”, como escrevi no Último Segundo, tem vários méritos, no seu esforço de compreensão dos ataques do PCC durante três dias, em maio de 2006 e a reação da polícia nos dias que se seguiram. Mas há uma clara quebra de ritmo sempre que o documentário, com narração melodramática, nos convida a “ver” alguma cena de violência recriada pela produção. Na minha visão, o filme não perderia nada sem essas cenas “recriadas”.

Autor: - Categoria(s): São Paulo, televisão Tags: , , , ,
25/10/2009 - 11:10

Tyson, os Gracies e a arte da violência. Arte?

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Mostra SeloDois documentários programados na 33ª Mostra de Cinema de São Paulo recolocam em questão um tema espinhoso: boxe, jiu-jitsu e outras formas de luta podem ser consideradas esportes? Tanto “Tyson”, de James Toback, quanto “Os Gracies e o Nascimento do Vale Tudo”, de Victor Cesar Bota, defendem essa idéia com unhas e dentes, ao mesmo tempo em que as cenas violentas que exibem os contradizem o tempo todo.

“Parece um esporte brutal, mas é apenas uma técnica, uma arte”, defende Mike Tyson, a certa altura do longo depoimento que dá a Toback. Os diferentes integrantes da família Gracie que falam para a câmera de Bota enfatizam a idéia que o jiu-jitsu é uma técnica de defesa e que não é preciso ser forte e grandalhão para se sair bem numa briga.

O que poderia haver de mais brutal, no entanto, do que um boxeador arrancar um pedaço da orelha de seu rival numa luta? Ou ver um lutador caído no chão acertar um chute na testa do adversário, derrubá-lo e, na sequência, dar um soco no meio da sua cara?

TysonA brutalidade de Tyson, não é preciso ser psicólogo de botequim para notar, está intimamente relacionada à sua história de vida. E é dessa história que Toback tira a força do seu filme. Longe do esforço de objetividade, que caracteriza um documentário próximo do modelo jornalístico, “Tyson” propõe ao espectador um encontro íntimo com o ex-boxeador.

Falando para a câmera, sem ser interrompido ou confrontado com versões diferentes da sua, Mike Tyson conta a história tal como é capaz ou lhe interessa. Evita algumas questões polêmicas e possivelmente “reescreve”, ao bel prazer, diversos episódios, mas o seu relato é impressionantemente forte e comovente.

Tyson fala abertamente da infância na rua, dos primeiros assaltos, das primeiras temporadas no reformatório, até ser “adotado” por Cus D´Amato (1908-1985), que o treinou por alguns anos e o ensinou a administrar o medo. O treinador morreu um ano antes de ver Tyson se tornar, aos 20 anos, o mais jovem campeão mundial na categoria peso-pesado.

Segundo Tyson, D´Amato foi o único amigo que teve na vida. Cercado de “sanguessugas”, nas suas próprias palavras, avalia ter jogado fora mais de US$ 400 milhões ao longo do tempo – acredita ter sido roubado por todos os seus empresários, gastou milhões com indenizações, rompimento de contratos, multas etc. Mas não culpa ninguém. “Os sanguessugas se alimentavam do meu sangue e eu do sangue deles”, diz no filme.

GraciesJá os Gracies emergem do documentário de Victor Cesar Bota como uma família cujo destino de todos os homens parece traçado antes do nascimento: ter um nome iniciado com a letra “R” e ser lutador – de jiu-jitsu, luta greco-romana ou vale tudo.

Desenvolvida nos anos 30 do século passado pelos irmãos Carlos e Helio Gracie, a técnica brasileira do jiu-jitsu vai desembocar, 60 anos depois, no Ultimate Fighting, que tanto sucesso faz nos Estados Unidos e Japão.

Filhos, sobrinhos e netos dos patriarcas, como Rolls, Rorion, Rickson, Royce, Royler, Renzo e Ryan Gracie, desfilam pela câmera, exibindo seus talentos na arte da porrada e mostrando que a família está mais desunida do que nunca tanto em relação à filosofia por trás da luta quanto nos negócios.

O filme resgata boas imagens de arquivo, especialmente os desafios de luta-livre no Rio e em São Paulo nos anos 50 e os treinamentos do clã Gracie nos anos 70. O que mais impressiona, no entanto, são as imagens de um filme caseiro, que mostra dois alunos de academias rivais, ambas mantidas por Gracies, brigando ao ar livre, de sunga, no jardim da casa de alguém, cercados de espectadores. A certa altura, alguém quer interromper a luta, que já produz ferimentos com sangue nos lutadores, mas é impedido por outro espectador. E a briga continua.

“Tyson” tem mais três sessões na Mostra: terça-feira (27), às 12h, no Unibanco Artplex; sexta (30), às 14hs, no Cine Bombril, e domingo, (1/11), às 23h40, no Unibanco Artplex. Mais informações, e um trailer do filme, no site da Mostra.

“Os Gracies e o Nascimento do Vale Tudo” têm mais duas sessões na Mostra: segunda-feira (26), às 13h30, no Unibanco Artplex, e sábado (31), às 14hs, no Cinema da Vila. Mais informações, e um trailer do filme, no site da Mostra.

Autor: - Categoria(s): Cultura, Esporte Tags: , , , , ,
23/10/2009 - 13:21

Descendo o rio Tietê com o Teatro da Vertigem

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Mostra SeloConhecido por suas montagens ousadas e originais, longe dos palcos tradicionais, o Teatro da Vertigem, dirigido por Antonio Araujo, já apresentou espetáculos em uma igreja (“O Paraíso Perdido”), num hospital (“O Livro de Jô”) e numa prisão (“Apocalipse 1.11”).

Nenhuma encenação foi tão arrojada, no entanto, e exigiu tanto do grupo, quanto “BR3”, que se passa dentro do fétido rio Tietê e às suas margens, em São Paulo. A montagem consumiu um longo período de preparação, com laboratórios na favela Brasilândia, em São Paulo, e uma viagem da companhia a Brasília e Brasiléia, no Acre. Estes três locais, todos iniciados com as letras “BR”, formam o eixo central da peça, cuja dramaturgia foi desenvolvida pelo escritor Bernardo Carvalho.

BR3 vertigem“BR3” estreou em fevereiro de 2006, com a ambição de fazer uma longa temporada, mas ficou apenas dois meses e meio em cartaz, em função do rompimento do contrato com o dono do barco que conduzia o público pelo rio, e onde se passavam várias cenas da peça. O Vertigem ainda encenou “BR3” na Baia de Guanabara, no Rio de Janeiro, por um breve período.

A frustração pela acidentada trajetória do espetáculo é compensada, ao menos em parte, pelo trabalho do cineasta Evaldo Mocarzel. Jornalista e documentarista, diretor do premiado “À Margem da Imagem”, Mocarzel registrou uma das encenações de “BR3” e, de quebra, ainda realizou um documentário sobre a montagem.

Mesmo para quem assistiu a peça, no rio Tietê, o filme de Mocarzel oferece atrativos. Com várias câmeras, ele registra belíssimas imagens e ângulos que o público, no barco que corria o rio, não teve a oportunidade de ver. Já o documentário, com os depoimentos de todos os envolvidos na montagem, do diretor aos técnicos, expõe o processo de trabalho do Vertigem.

Em alguns depoimentos, especialmente os de Antonio Araujo, Bernardo Carvalho e de alguns atores, somos capazes de sentir as tensões envolvidas no corajoso percurso do Vertigem. O trabalho de Mocarzel resulta de grande importância pelo registro da montagem e pelo esforço de entender os seus meandros.

Nesta sexta-feira, será a única oportunidade de ver os dois filmes encadeados. Às 17h20, o documentário será exibido no MIS e, na sequência, às 19h, passa a montagem da peça. Também estão programadas sessões separadas dos dois filmes. No dia 31, às 14hs, no HSBC Belas Artes, será exibida a peça. E no dia 3, às 13h30, no Espaço Unibanco, o documentário.

Autor: - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , ,
17/06/2009 - 10:38

Chico substitui Caetano em filme sobre os Mutantes

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Há seis meses, quando “Loki” foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, escrevi no Último Segundo  
que aquela seria, possivelmente, a última oportunidade de assistir na tela grande o documentário sobre Arnaldo Baptista, o cérebro dos Mutantes.

“Primeiro longa-metragem produzido pelo Canal Brasil, ‘Loki’ caminha para se tornar um produto de exibição exclusiva na tevê fechada e em DVD”, escrevi em outubro de 2008. Os custos envolvidos no pagamento de direitos de exibição das quase 50 músicas, além dos respectivos direitos autorais, inviabilizariam a sua exibição em cinemas, disse então Paulo Henrique Fontenelle, diretor do filme.

Outro empecilho, observou o diretor na ocasião, seria a distribuição do filmes nos cinemas. “É complicado. No máximo, a gente consegue exibir duas cópias nos cinemas, uma no Rio e outra em São Paulo. O filme poderia fazer 100 mil espectadores. Na tevê, você faz isso numa única exibição”, disse Fontenelle.

Tudo mudou em pouco tempo. “Loki” foi escolhido pelo público tanto do Festival do Rio quanto da Mostra de São Paulo como o melhor filme de 2008. Mais que isso, as sessões do filme em diferentes festivais, sempre acompanhadas por muitas lágrimas e aplausos (tanto de contemporâneos dos Mutantes quanto de adolescentes), sinalizaram que o filme tinha um potencial a ser explorado. Uma campanha articulada por fãs lotou a caixa postal do Canal Brasil, com pedidos para a exibição do filme e ofensas à decisão de não mostrá-lo nos cinemas.

“A repercussão foi tão grande que a gente começou a ver como levar o filme para os cinemas”, conta agora Fontenelle. A primeira providência foi a negociação para pagamento dos direitos autorais das músicas ouvidas no filme. “Para regularizar tudo, gastamos mais R$ 80 mil”, conta o diretor. O valor quase duplica o investimento inicial na produção do documentário, que foi de cerca de R$ 110 mil.

Apenas uma cena musical foi excluída da versão que será exibida nos cinemas, a partir desta sexta-feira, 19 de junho. Ao longo da negociação, os produtores do filme não chegaram a um acordo com os detentores dos direitos de “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso. Um clipe de dez segundos, com cenas da apresentação do músico no Festival da Record de 1967, foi cortado do filme. “Era impossível pagar o que eles estavam pedindo”, diz Fontenelle.
 
No lugar dele, o diretor inclui dez segundos de Nara Leão cantando “A Banda”, de Chico Buarque, no mesmo festival, um ano antes. Trata-se de uma troca repleta de ironia.

Como se sabe, a cordial rivalidade entre Chico e Caetano tem origem justamente nesses dois festivais. O sucesso da inocente marcha de Chico, vencedora do festival de 1966, tornou o compositor uma celebridade. No ano seguinte, o tropicalismo explodiria com as apresentações de Caetano (“Alegria, Alegria”) e Gilberto Gil (“Domingo no Parque”).

Para “Loki”, o filme, o Festival da Record de 1967 seria muito mais importante do que o de 1966, já que Arnaldo, Rita Lee e Os Mutantes, no papel da banda que acompanhou Gil, ganharam inédita projeção justamente a partir daquela apresentação.

“Graças a Deus, essa foi a única cena que o filme perdeu”, diz Paulo Fontenelle. “Estou muito feliz de colocar ‘Loki’ nos cinemas. A minha idéia, desde o início, era essa. Todas as decisões que tomei durante as filmagens foram pensando em exibi-lo na tela grande”, diz.

A distribuição de “Loki” ficou a cargo do próprio Canal Brasil, que fez um acordo com a rede Unibanco Artplex. Dessa forma, o filme estreia nesta sexta-feira em 17 salas de 14 cidades. No dia 18 de setembro, quando o Canal Brasil comemora 11 anos, o filme será exibido na tevê. E, possivelmente, no final do ano, ganhará as lojas no formato de DVD.

Veja o trailer do filme aqui.

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07/04/2009 - 16:10

Valsa com Bashir: em busca da memória da guerra

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Além da capacidade de rir de si próprio, outra característica que diferencia os grandes homens é a de refletir sobre os próprios erros. Valorizo ainda mais a auto-ironia e a autocrítica em situações-limite, como as que envolvem pessoas queridas, a vida profissional e a pátria.

Faço esse preâmbulo (nariz-de-cera, dizem os jornalistas) para falar do filme “Valsa com Bashir”, do israelense Ari Folman. Durante o período em que serviu o Exército, Folman foi enviado para o Líbano, invadido por Israel em 1982. Foi uma guerra suja, como todas, na qual as tropas israelenses contavam com o apoio, e apoiavam, as milícias cristãs, em oposição às diferentes milícias xiitas, apoiadas por Síria e Irã.

A invasão israelense ficou marcada pelo massacre de Sabra e Chatila, campos de refugiados palestinos, localizados a oeste de Beirute. Em represália ao assassinato de seu líder, Bashir Gemayel, milícias cristãs invadiram os campos e mataram centenas de crianças, mulheres e idosos entre os dias 16 e 18 de setembro de 1982. O papel do Exército de Israel no episódio nunca foi claramente determinado, mas não há dúvidas sobre a sua grave omissão e ajuda indireta, cuidando da entrada e iluminando os campos à noite.

O cineasta Ari Folman se dedica, em “Valsa com Bashir”, a reconstituir os seus dias no Líbano – um tempo traumático, apagado de sua memória. Para isso, ele entrevista colegas que serviram juntos na guerra, ouve amigos, conversa com um psicanalista, enfim, tenta entender o que aconteceu e o que ele fez lá.

Filmadas, as entrevistas foram transformadas em imagens de animação, dando ao filme um ar de “graphic novel”. Dizem os especialistas que “Valsa com Bashir” inventou um novo gênero, ou subgênero, o documentário de animação. É impressionante a força e o impacto do resultado.

Folman não se preocupa em ouvir os muitos lados envolvidos na guerra (as milícias, os civis, os políticos) – apenas os israelenses com quem conviveu no período. Seu esforço, ao resgatar a memória daqueles dias, é menos de denúncia do que auto-conhecimento. Não por acaso, “Valsa com Bashir” foi criticado por israelenses tanto à esquerda quanto à direita do espectro político.

Lançado em 2008, o filme vem colecionando prêmios importantes em Israel, em toda a Europa e nos Estados Unidos (para a lista completa, clique aqui) . Estreou no Brasil no último dia 3 e, a julgar pelo número de pessoas presentes na sessão das 20hs de domingo, não vai sobreviver muito tempo em cartaz. Fica aqui a dica.

Autor: - Categoria(s): Cultura Tags: , , ,
28/01/2009 - 11:06

Toda revista de moda manipula foto. Só falta avisar o leitor

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Um filme documentário sobre a revista “Vogue” americana  e sua editora, a famosa Anna Wintour, está causando escândalo no mundo da mídia. “The September Issue”, de R.J. Cutler, exibido no Festival Sundance, revela que a foto da capa da edição de setembro da revista, com Sienna Miller, é resultado da manipulação de duas imagens – uma da cabeça e uma do corpo da atriz britânica.

Pintada como a bruxa Miranda Priestly em “O Diabo Veste Prada”, Wintour também lamenta, no filme, que Sienna seja “dentuça” e tenha muitas obturações nos dentes – o que exigiu ainda mais trabalho no Photoshop, o programa de computador usado para manipulação de imagens.

Conversei com um editor de arte de revistas de moda e estilo e ele confirmou algo que eu já suspeitava: não há novidade alguma nessa revelação do documentário sobre a “Vogue”. É muito comum o uso de mais de uma foto de uma mesma modelo para compor uma única imagem em revistas. Há casos, até, mais graves, de uso do rosto de uma modelo no corpo de outra. O Photoshop não apenas elimina imperfeições, mas ajuda alterar as formas – modelos com pés ou mãos muito grandes, por exemplo, aparecem nas revistas com formas perfeitas.

As fotos que serviram à montagem da “Vogue” são obra de Mario Testino – um dos mais famosos fotógrafos de moda do mundo. Não há grande nome nesse ramo, o que inclui Annie Leibovitz, por exemplo, que não tenha foto manipulada ou montada em revista. 

A novidade do filme “The September Issue” é tornar pública a manipulação. As revistas de moda, estilo e beleza não têm o habito de informar a seus leitores que as imagens que eles estão vendo passaram por radical processo de “melhoramento”. Deveriam fazer isso. 

Autor: - Categoria(s): jornalismo Tags: , , , ,
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