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04/12/2009 - 14:27

A encantadora vida dos personagens sem charme

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Proibido fumarNuma cena sem maior importância de “É Proibido Fumar”, Baby (Gloria Pires), a solitária protagonista da história, está dentro do elevador lotado do prédio em que mora, no bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Ela divide o acanhado ambiente com o síndico Pepe (Antonio Abujamra), seu filho Pablo e seu neto Diego.

Quem não conhece Pablo e Diego precisa ir aos créditos finais para saber que o primeiro é vivido pelo músico André Abujamra e o segundo é o garoto José Abujamra. São, como o leitor pode suspeitar, filho e neto do grande ator, que faz Pepe. E mais: André é ex-marido de Anna Muylaert, a diretora do filme, e José é filho de ambos.

Mais que uma ação entre amigos, essa reunião dentro do elevador diz muito do que Anna Muylaert pretendeu fazer e, com muito talento, alcançou neste seu segundo longa-metragem.

“É Proibido Fumar” é um filme pequeno e caloroso, um olhar muito carinhoso sobre a vida de dois personagens sem charme nenhum, narrado num registro próximo ao da comédia romântica, mas contido, quase sem tiques e exageros.

A trama está centrada no encontro de duas pessoas comuns, de classe média empobrecida, e suas vidinhas pouco empolgantes. Baby tem 40 anos, é solteira e dá aulas de violão no pequeno apartamento em que vive, seu único patrimônio, herança da mãe. Max (Paulo Miklos) é um músico de pouco sucesso, que gosta de Jorge Bem Jor, mas é obrigado a tocar samba em churrascaria para pagar o aluguel.

Max vai morar no apartamento vizinho ao de Baby e, assim, de uma hora para a outra, essas duas figuras cujas vidas não prometem nenhuma emoção maior vão começar a escrever uma história em comum.

O encontro dos dois personagens envolve amor, carinho e ciúme, mas não paixão. Parece ser a relação de duas pessoas maduras, que já viverem muitas coisas e, agora, controlam melhor seus sentimentos. O cigarro, que Baby fuma desesperadamente e Max abomina, é um elemento central na trama – o vilão que finge ser seu amigo – com inúmeras conotações possíveis.

“Durval Discos”, o filme de estreia de Anna Muylaert, já mostrava o seu bom olho para as miudezas do cotidiano de figuras meio fora do trilho, como o vendedor de LPs, vivido por Ary França, resistente à “modernidade”, no bairro de Pinheiros, também em transformação. “É Proibido Fumar” vai além, ao expor uma cineasta segura, madura e muito talentosa.

Só espero que o público supere a preguiça de ver apenas filmes brasileiros com cara e ritmo de novela da Globo e não deixe “É Proibido Fumar” passar despercebido. Uma boa reportagem sobre o filme, publicada nesta quinta-feira no Último Segundo, pode ser lida aqui.

Autor: - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , ,
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