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12/07/2009 - 12:31

O “pé na bunda” como obra de arte

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Um belo dia a francesa Sophie Calle abriu o computador e, entre os novos e-mails, havia uma mensagem de um namorado comunicando o fim da relação. Confuso, ambíguo, mal escrito, o texto segue a clássica cartilha do rompimento amoroso: “a culpa não é sua, é minha”, insiste o autor do e-mail.

“Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecemos”, escreve o cara. “Mas hoje seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quanto eu ter se tornado irremediável”, prossegue. “Cuide de você”, encerra.

Sem saber como responder. Sophie Calle resolveu fazer algo a que tem se dedicado com sucesso já há 30 anos: transformar a vida cotidiana, inclusive a sua, em objeto da arte. Ela convidou 107 mulheres, das mais diferentes profissões, a interpretarem a carta.

Uma juíza viu no texto uma honesta “rescisão de contrato”. Uma revisora apontou erros, redundâncias e construções mal feitas. A criminologista concluiu que o autor da carta é “elegante, charmoso e sedutor”, mas também “orgulhoso, narcisista e egoísta”. Uma adolescente foi sucinta em sua interpretação: “Ele se acha!”. A delegada de polícia não viu qualquer crime na carta: “Afinal, não nos apaixonamos por nossa própria conta e risco?”

Sophie Calle fotografou as diferentes mulheres que interpretaram a carta e fez vídeos, nos quais outras pessoas, como as atrizes Maria de Medeiros e Victoria Abril, apresentam diferentes leituras do documento.

Tudo isso reunido integra a exposição “Cuide de Você”, exibida em 2007 na Bienal de Veneza, e depois na França, Canadá e Estados Unidos. Desde sábado, 11 de julho, e até 7 de setembro, está em exibição em São Paulo, no Sesc Pompéia. Entre 22 de setembro e 22 de novembro, a exposição poderá ser vista no MAM da Bahia, em Salvador.

Artista performática, Sophie Calle tem se dedicado a diferentes experiências, mais ou menos controladas, ao estilo de “Cuide de Você”, desde o início de sua carreira. Em 1979, seguiu um desconhecido pelas ruas de Paris, conheceu-o, depois continuou seguindo-o numa viagem a Veneza, enquanto documentava todo o processo com fotos. No mesmo ano, escolheu ao acaso 28 pessoas para dormir na sua cama, em turnos consecutivos de oito horas, por uma semana, fotografando-os.

Em duas ocasiões diferentes pediu à mãe que contratasse um detetive particular para segui-la, sem que ela soubesse, e criou exposições com as fotos e relatórios do investigador. Uma versão desse trabalho foi exibida na 28ª Bienal de São Paulo, em 2008.

Antes de inaugurar a exposição no Sesc, na sexta-feira, 10, Sophie Calle participou da 7ª Festa Literária de Paraty, numa mesa intitulada “Entre quatro paredes”. Adivinhe quem dividiu a mesa com ela? O escritor Grégoire Bouiller, autor de “O Convidado Surpresa” (CosacNaify), recém-lançado, ex-namorado de Calle e, “por acaso”, autor da carta de rompimento que deu origem à exposição “Cuide de Você”.

Na véspera do debate, que seria o primeiro encontro entre os dois desde o e-mail de rompimento, Bouiller e Calle foram vistos dividindo uma mesa, animadíssimos, num restaurante em Paraty. Durante o debate literário, o escritor defendeu o direito de dar um pé na bunda na namorada. “Não é proibido dar um fora em alguém”, disse. “Sei que isso provoca dor, mas todo mundo tem o direito de amar alguém e deixar de amar”.

Irônica, Sophie Calle respondeu: “Mas o e-mail terminava com a frase ‘cuide de você’. E você sabe que eu sei me cuidar”. A exposição em cartaz em São Paulo mostra que a artista tem razão.

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05/07/2009 - 15:43

Lobo Antunes: a arte de estimular a leitura

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O que faz uma conversa sobre livros ser melhor que a outra? Por que o encontro com o escritor português Antonio Lobo Antunes foi o melhor da 7ª Festa Literária de Paraty? Arrisco algumas explicações: Lobo Antunes falou sobre o ofício de escrever, um tema fascinante, com humor e ironia. Evocou referências conhecidas do grande público, fez referência a escritores brasileiros famosos – até jogadores de futebol foram citados.  Também discorreu sobre seus pais e avós, um assunto de fácil identificação, e não cansou de fazer citações, sempre divertidas, de autores famosos. Enfim, uma aula sobre como conversar com um grande público sobre literatura e estimular o desejo de ler.

Reproduzo abaixo algumas frases de efeito, ditas durante a conversa, mediada pelo jornalista Humberto Werneck:

Sobre a família
Eu tinha 12 anos. Meu avô me chamou e disse: “Ouvi dizer que você escreve versos. Você é viado?”

Meu pai não queria ter filhos, queria ter campeões de caratê. Tínhamos que ser os melhores em tudo.

Minha avó achava o alemão um bom idioma para falar com os cavalos.

Sobre literatura brasileira
Para mim, o grande poeta do século XX é Cabral (João Cabral de Mello Neto). Também gosto de Drummond

Com a prosa (brasileira) tenho uma relação mais difícil. Começo a ler, tenho vontade de corrigir.

Jorge Amado gostava de me abraçar, me beijar. Ele dizia: “Gosto de lamber minhas crias”.

Sobre o ofício de escrever
Perguntaram a Picasso sobre a sua inspiração. E ele: “Ah se ela viesse quando estou trabalhando”.

Paulo Mendes Campos falava da importância de Didi para Garrincha. Para escrever você precisa ter Garrincha (mão) e Didi (cabeça) dentro de você

Escrevo um livro para corrigir o anterior.

Gosto dos livros de Garcia Marquez, mas não teria prazer de tê-los escrito.

Advérbios são palavras que existem para não serem usadas. Adjetivos, aquelas putas, dizia Cortazar.

Um bom livro se faz sozinho. Se a mão esta feliz, o livro sai bom.

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04/07/2009 - 21:38

Talese encena um roteiro pouco empolgante em Paraty

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Para os muitos jornalistas presentes em Paraty, o encontro com Gay Talese era a principal atraçäo da Flip. Razöes näo faltam para a adoraçäo. Talese está no pequeno time dos jornalistas que levaram a profissäo a um lugar próximo da arte, especialmente no livro “Fama e Anonimato”, que reúne reportagens e perfis escritos na década de 60.

A primeira ediçäo deste livro lançada no Brasil chamava-se “Aos Olhos da Multidáo”. Esgotado na década de 80, circulava de mäo em mäo entre jornalistas. Li um exemplar xerocado, emprestado por Joaquim Ferreira dos Santos, repórter do Caderno B do “Jornal do Brasil”, em 1986.

Aos 77 anos, Talese conserva a elegância e a fleuma que fizeram a sua fama. De terno e chapéu, circula pelas ruas de pedra de Paraty de braços dados com a mulher, com quem é casado há 50 anos. Atendeu todos os jornalistas que o procuraram para entrevistas  e, na coletiva, há dois dias, falou uma hora e meia sem parar.  

Por tudo isso, o encontro de Talese, neste sábado, com o público causou uma certa decepçäo. Recepcionado pelo jornalista Mario Sergio Conti, Talese discorreu sobre os mais variados assuntos, mas com a frieza e a técnica de quem já contou as mesmas histórias algumas dezenas de vezes.

No lugar de dialogar com Conti, parecia mais estar repetindo um roteiro que já encenou antes. As perguntas serviam como deixas para as falas de Talese – näo para um diálogo. O escritor pouco respondeu sobre os questionamentos feitos, o que acabou resultando num encontro cansativo, pouco atraente. O único bom momento ocorreu ao final, quando Talese enfrentou de fato um tema proposto, sobre o fato de expor intimidades suas e de sua mulher, num livro previsto para o ano que vem.

Foi uma oportunidade para o escritor falar, com emoçäo, do seu casamento. “Respeito é a palavra mais importante num relacionamento. Näo é amor, näo é sexo. Sexo pode ser o mais importante quando você tem 17 anos. Quando você tem 77…”

Por tudo que já escreveu, e pelo que representa para os jornalistas, Talese tem todo o direito de näo empolgar numa festa literária. Numa boa. Mas eu não seria honesto com o que de mais precioso Talese sempre pregou (o respeito à verdade) se näo manifestasse a minha frustraçäo.

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04/07/2009 - 08:50

Chico Buarque, o Google, a fofoca e Joäo Gilberto

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À vontade, bem diferente da sua primeira participaçäo na Flip, em 2004, quando apenas leu trechos de um livro de Paul Auster, Chico Buarque deixou a famosa timidez de lado e deu um show na festa literária de Paraty de 2009. Falou sobre os mais variados assuntos, com humor e ironia, como se estivesse entre amigos, e näo diante de centenas de fäs. Ao lado de Milton Hatoum, autor de “Órfäos do Eldorado”, e do crítico Samuel Titan Jr., o autor de “Leite Derramado” se divertiu e nos divertiu. As melhores da noite:

Hatoum falou a primeira frase de efeito do encontro ao contar que escreveu a novela “Órfäos do Eldorado” por encomenda de uma editora inglesa. A primeira versäo do texto tinha mais do que o dobro do tamanho pedido. Recomeçou do zero. “Escrever de encomenda é horrível. Nunca mais farei nada de encomenda. Nem um bilhete”, disse, rindo.

O show de Chico começou com a explicaçäo sobre como foi escrever um livro, “Leite Derramado”, que lida com as memórias de um homem de 100 anos de idade. “Assim como nunca estive em Budapeste, antes de escrever o outro romance, nunca estive em 1928, onde passa ‘Leite Derramado’.”

Na sequência, falou sobre o prazer de ler e do trabalho cansativo de escrever. “Eu escrevo para ler. Escrever é uma chatice”, disse, com um sorrriso nos lábios.

As semelhanças entre “Órfáos do Eldorado” e “Leite Derramado” deram pano para manga e muitas brincadeiras. “Depois de ler o livro dele, pensei: Esse cara copiou meu livro”, brincou Chico. E Hatoum, depois de ler Chico: “Essa história eu contei para o Chico!”

Foi entáo que Chico revelou-se um mortal, como nós todos, e contou que, durante a leitura de “Órfáos do Eldorado”, foi várias vezes ao Google esclarecer dúvidas e entender detalhes. E ainda disse: “Tudo já estava no Google, do meu e do seu livro”, disse, para Hatoum. 

À vontade, Chico falou do pai, o historiador Sergio Buarque de Hollanda, autor de “Raízes do Brasil”. Contou que ele näo dava muita atençäo aos filhos e que gostava de uma boa fofoca. Ouvia o pai conversar com os amigos, em casa, e se divertia ouvindo-os contar casos saborosos ou picantes sobre os figuröes da época.

Por fim, Chico fez uma defesa apaixonada da música popular brasileira. Disse näo entender porque ela é vista como uma arte menor. “Sinceramente, näo sei se Guimaräes Rosa é mais importante que Joäo Gilberto”, provocou.

Também contou que, quando escreve, näo faz música, mas busca em cada frase a sonoridade correta. “Preciso sentir musicalmente cada frase”.

Encerrada a conversa, Samuel Titan Jr. avisou que Chico só poderia dar autógrafos por um tempo limitado. E o músico e escritor, muito à vontade, replicou: “Quem disse isso?” Foi a senha para o começo de uma tietagem explícita, que fez a alegria das fäs. 

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03/07/2009 - 18:07

Um pouco de pimenta: Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho

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Como outras festas literárias, a de Paraty é um local mais para divulgaçäo e promoçäo de livros e escritores do que propriamente para debates profundos e confrontos de idéias. A natureza do evento é festiva – e essa é uma das suas principais atraçöes. A outra é o cenário da festa – a encantadora Paraty.

De certa forma, a mesa que abrigou o escritor afegäo Atiq Rahimi e o brasileiro Bernardo Carvalho acrescentou uma pimenta a este clima festivo. Intitulado “O Avesso do Realismo”, e mediado pela crítica Beatriz Resende, o encontro propiciou o confronto de duas visöes muitos opostas sobre literatura.

Educado em francês e radicado na França, Rahimi defendeu a idéia de que a literatura é universal. Contou do seu encanto, na infância, no Afeganistäo, ao ler os clássicos franceses e defendeu: “O escritor está condenado a ultrapassar fronteiras, a ser errante.”

Carvalho imediatamente rebateu, falando da resistência de diferentes culturas nacionais hegemônicas em aceitarem literaturas de outros países. Também defendeu a posiçäo que a literatura que interessa näo é a universal, mas a particular, que surpreende. “Na arte tem coisas mais interessantes que os bons sentimentos”, disse, arrancando aplausos.

O afegäo sentiu o golpe e recorreu ao francês Roland Barthes, para quem “sempre há um desastre pessoal que nos leva a desastres universais”. Em seguida, disse: “Näo é uma questäo de bons sentimentos, mas projetar-se na sociedade. Falo das minhas próprias feridas.”

Beatriz Resende propôs entäo uma questäo sobre o tema da guerra, presente tanto nos romances de Rahimi quanto no mais recente de Carvalho, “O Filho da Mäe”, passado na Rússia e na Tchechênia. O brasileiro contou que sempre se impressionou com uma frase do cineasta Jean-Luc Godard, para quem “se o mundo fosse governado pelas mulheres, näo haveria guerra”. “Náo é verdade”, disse Carvalho. “O amor incondicional é a origem das guerras. Quem ama também mata. Defendendo os seus filhos”.

Rahimi contou de seu retorno ao Afeganistäo, em 2002, procurando as suas “pegadas”, sem encontrar nada. “Tudo acaba. Descobri essa energia quando voltei. É essa idéia que dá energia às pessoas para viver.”

Carvalho falou da descoberta, em suas viagens, do medo. “Descobri que o medo é um motor importante da minha literatura. O medo distorce a realidade”, explicou.

Um encontro, enfim, mais de desencontros do que encontros, mas interompido pelo tempo. A brevidade do evento näo permitiu que as divergências evoluíssem para um debate.

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14/05/2009 - 19:05

Flip: filet mignon no fim de semana

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Sempre estimulante, a programação da sétima Flip, divulgada nesta quinta-feira, apresenta uma curiosidade. Com exceção de Richard Dawkins, talvez o maior nome do evento, cuja conferência está marcada para quinta-feira, 2 de julho, às 19hs, a feira literária de Paraty reservou os dias e horários mais nobres do evento para os estrangeiros e deixou a maioria dos brasileiros em segundo plano.  

Com programação desde quarta-feira, 1º de julho, até domingo, dia 5, a Flip guardou para o sábado e a manhã de domingo os nomes de maior apelo de mídia, quase todos estrangeiros – Alex Ross, Gay Talese, Lobo Antunes e Simon Schama (Chico Buarque, escalado para as 19hs de sexta, completa este time de “estrelas”).

Em 2004, Chico reuniu uma multidão para vê-lo jogar futebol e ler trechos de um romance de Paul Auster. Ambos os eventos foram frustrantes. Este ano, a julgar pela descrição da mesa que dividirá com Milton Hatoum, existe a promessa de algo a mais: “O Brasil na visão desses dois grandes prosadores é o tema da mesa que eles compartilham em Paraty”, informa o site oficial da Flip. 

Então, se você planeja passar o sábado e a manhã de domingo em Paraty, recomendo que tente chegar sexta-feira no final da tarde. 

PS: Parati ou Paraty? Sei que o assunto é polêmico, mas, da mesma forma que o iG, usei neste texto a grafia que a cidade prefere e a Flip adotou.  

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