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07/08/2009 - 10:46

Em São Paulo, gremista canta o hino do Rio Grande do Sul

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A convite de um amigo, também chamado Mauricio, fui assistir Palmeiras e Grêmio, quinta-feira à noite, no Parque Antarctica. Gremista fanático, meu xará sonhava em me apresentar à torcida tricolor no Olímpico, mas concedeu que o meu primeiro contato se desse no estádio Palestra Itália mesmo. Foi uma experiência fascinante.

Como já havia tido o desprazer de vivenciar em jogos do Botafogo com o Palmeiras, o local reservado à torcida adversária no Parque Antarctica é, possivelmente, o de pior visibilidade do campo que existe em estádios da Série A no Brasil. Do cantinho onde me espremi com milhares de gremistas, enxerga-se muito melhor as piscinas do clube do que o gramado.

É espantoso constatar que a torcida do Grêmio não vaia a ritual execução do Hino Nacional, antes do início da partida. Ao contrário, empenha-se com entusiasmo na cantoria – só que do hino do Rio Grande do Sul.

Aprendi várias músicas novas na torcida. A que mais gostei diz: “Dá-lhe, dá-lhe tricolor, eu sou borracho sim senhor. E bebo tudo que vier. Canto pro meu tricolor, meu único amor”.

O “borracho” da música mostra o parentesco dos gremistas com seus vizinhos argentinos e uruguaios. A palavra quer dizer “bêbado” em espanhol, mas foi incorporada há muito ao “gauchês” e é cantada em português mesmo, sem pronúncia.

Na hora do gol do argentino Maxi López, empatando a partida, uma decepção: não aconteceu aquele movimento de torcedores despencando da arquibancada que sempre vejo na televisão. Chama-se “avalanche” aquela fantástica e perigosa coreografia, que os gremistas tiveram o bom senso de não realizar no Parque Antártica.

A certa altura da partida, tenho dificuldade de compreender um grito de guerra que os torcedores cantavam. Recorro então ao meu xará, que explica: a torcida está xingando o Internacional. É um velho hábito, que sobrevive mesmo na ausência do rival.

Abusada, a torcida provoca o atacante palmeirense Obina desde o início da partida, até ele ser substituído, com aplausos gremistas, no meio do segundo tempo. Quando a polícia libera um espaço um pouco maior na arquibancada para os torcedores, um sujeito ao meu lado grita: “Valeu, brigadiano” (que é como os gaúchos se referem aos policiais militares). E outro não cansa de incentivar o atacante Douglas Costa aos gritos de “vai, guri!”.

De pé ao longo dos 90 minutos, cantando e gritando, a torcida gremista em São Paulo dá uma aula de dedicação. Ao final, parece, sai satisfeita do estádio. E eu saio com a sensação de que assisti a uma partida em outro país – mas acho que compreendi tudo perfeitamente, porque, no fundo, futebol é uma língua universal.

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27/01/2009 - 10:15

Vídeo expõe o inglês ridículo de Anderson. E daí?

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A exportação de jogadores de futebol, ramo de atividade no qual o Brasil é um dos líderes mundiais, é um fenômeno ainda pouco avaliado. Ainda não vi um bom estudo sobre o impacto que representa na vida desses jovens uma mudança do interior de São Paulo para Moscou, ou do sertão de Pernambuco para a Malásia.

Entrou para o folclore, por exemplo, uma reportagem da TV Globo com Viola, pouco depois de o jogador ter se mudado para Valência, na Espanha, na qual ele reclamava da comida local e informava que estava vivendo a base de bolachas.

No livro “Futebol Exportação” (Senac, 2006), os jornalistas Claudia Silva Jacobs e Fernando Duarte relatam algumas histórias, tanto de sucesso quanto de fracasso, de jovens que aceitaram o desafio de jogar em qualquer canto do mundo na esperança de melhorar um pouco – ou muito – de vida.

Também são conhecidas as dificuldades de comunicação dos atletas brasileiros no exterior. Vindos, quase sempre, de famílias de baixa renda, não tiveram a oportunidade de estudar – muito menos uma segunda língua. Em muitas situações, dependem de tradutores, da boa vontade dos colegas e de muita mímica para conseguir se virar.

Na Itália, onde morei entre 1991 e 92, ouvia as entrevistas dos jogadores brasileiros e ficava impressionado como eles conseguiam se fazer entender sem falar italiano e se expressando num português capenga. Em 1994, na Copa dos Estados Unidos, tive a oportunidade de entrevistar Aldair – o zagueiro baiano, revelado no Flamengo, que jogou na Roma entre 1990 e 2003. Aldair praticamente inventou uma língua própria, falando mal o português, salpicado por palavras de italiano, com uma pronúncia indescritível.

Lembro disso tudo ao assistir a um vídeo que está fazendo um sucesso danado no You Tube (veja abaixo). Ele traz uma entrevista com Anderson, jogador do Manchester United, na qual ele fala em um inglês mais do que capenga. Quem colocou o vídeo no ar deu-se ao trabalho de adicionar legendas, reproduzindo literalmente as suas palavras, para realçar ainda mais as dificuldades do jogador em falar o inglês.

O efeito é muito engraçado, mas me faz pensar que Anderson começou no Grêmio ainda criança. Assinou o seu primeiro contrato profissional aos 16, mas desde os 14 já garantia a principal fonte de recursos de sua família. Aos 17 anos, estava no Porto e dois anos depois foi contratado pelo Manchester. É uma história gloriosa, dessas que só o futebol permite – mesmo que o seu inglês seja motivo de piada.

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