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11/12/2009 - 11:58

A educação pelo leitor

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Depois de um ano e meio, estou deixando o iG, onde fui alfabetizado em matéria de Internet, em direção a um novo desafio profissional. Roubo de um dos mais famosos poemas de João Cabral de Mello, “A Educação pela Pedra”, o título deste texto com que pretendo me despedir dos leitores deste blog.

Porque, se João Cabral extraiu da pedra a dicção de sua poesia, posso afirmar que descobri, no contato diário com os leitores, uma dimensão do jornalismo que teimei muitos anos em ignorar.

Escrevi, até esta sexta-feira, 538 textos para o blog e colhi 29.919 comentários a respeito do que foi publicado aqui. Como repórter especial do iG, produzi mais de duas centenas de reportagens e críticas, no período, publicadas em páginas do Último Segundo, no Esporte e no Babado, com outros milhares de comentários.

Conheci os mais variados tipos de leitores. Alguns poucos, fiéis, passavam quase todo dia e deixavam algum sinal de sua presença. A maioria, eventual, aparecia em função dos variados temas que propus.

Conheci, e sou muito grato, a todos que vou simbolizar aqui na figura do “leitor-colaborador” – aquele que lê e, rapidamente, comunica um erro, lembra de algo que o autor esqueceu, sugere um link, recomenda algo que pode complementar o post.

Também quero agradecer muito ao “leitor-crítico” – todos aqueles que tiveram a paciência de apresentar idéias em contraste com as minhas, propor visões diferentes, questionar o meu ponto de vista, sugerir novos enfoques.

Aprendi muito, ainda, com o “leitor-tropa-de-choque”, que entrou neste blog para manifestar a sua revolta com as idéias do blogueiro e, mesmo num tom de voz alto, exaltado, me ajudou a entender como devo ter cuidado com o impacto das minhas palavras.

Sem demagogia, colhi lições até do “leitor-covarde”, a pior espécie que habita a Internet – aqueles sujeitos, protegidos pelo anonimato, especialistas em defender interesses escusos, ofender quem pensa diferente deles e alimentar o terror.

O curso sobre Internet que tive no período também contou com lições fundamentais dos meus generosos companheiros de trabalho, Caio Túlio Costa, Mario Vitor Santos, Alessandra Blanco, Mariana Castro, Gian Oddi e as dedicadas equipes do Último Segundo, iG Esporte e Babado. Desejo muito sucesso, a todos que permanecem, nesta nova fase do iG.

Como disse no início, creio que fui alfabetizado em matéria de Internet neste convívio diário, por um ano e meio, com os leitores. Sinto-me pronto para seguir adiante nesta mídia e convido, a quem se interessar, a acompanhar os próximos passos da jornada pelo meu Twitter.

Deixo-os na companhia de João Cabral. Obrigado.

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

*
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

Autor: - Categoria(s): Blog, Internet, jornalismo Tags: , , ,
11/08/2009 - 16:48

Como a Internet mudou minha percepção sobre jornalismo

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No dia 11 de agosto de 2008, exatamente um ano atrás, este blog deu início às suas atividades. Minha experiência como jornalista na internet começou logo com dois posts – um sobre o topete do cineasta David Lynch e outro sobre a visita do governador José Serra ao MIS  (Museu da Imagem e do Som) no dia de sua reinauguração.
 
Convidado por Caio Túlio Costa e Alessandra Blanco a ser repórter do Último Segundo (iG), ganhei este blog como uma espécie de complemento do trabalho. Ambas as atividades – repórter do portal e blogueiro – me fizeram entender, com atraso, como havia alimentado preconceitos em relação à Internet. Não que os problemas que sempre enxerguei nesta mídia inexistissem, muito pelo contrário, mas minha atitude distante, até então, me impedia de perceber as suas potencialidades.

A Internet é incompatível com a atitude, muito comum, de indiferença, quando não de arrogância, dos jornalistas com os seus “clientes” (leitores, espectadores, ouvintes). Não é possível fazer jornalismo nesta mídia sem levar em conta o impacto (ou a falta dele) no receptor da notícia. Da mais alta autoridade ao leitor menos instruído, cuja dificuldade de compreensão nos obriga a repensar nossa maneira de comunicar, esta mídia provoca um ímpeto de participação que altera, de fato, o fazer jornalístico.

Correção imediata de erros, sugestões de assuntos, dicas sobre enfoques, críticas duras, ofensas pesadas – esse diálogo com o leitor, que muitos colegas classificam como inútil, infrutífero ou demagógico, renovou, realmente, a minha percepção sobre o meu trabalho como jornalista. 

Eu teria inúmeros exemplos para contar aqui sobre como foi feliz esse meu primeiro ano de blog e de internet. Ao leitor que estiver interessado sugiro a leitura do post anterior, no qual faço um balanço numérico da minha atividade neste primeiro ano e relato alguns casos. Aos demais, que chegaram até aqui, apenas informo que acabo de assinar a renovação de meu contrato com o iG por dois anos, o que sinaliza para mim a possibilidade de desenvolver um aprendizado que tem se revelado fascinante. Obrigado.

Autor: - Categoria(s): Blog, Internet Tags: , ,
11/08/2009 - 16:35

Um ano em números

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Nunca escrevi tanto como jornalista quanto neste primeiro ano de atividades na Internet. Foram 140 textos publicados no Último Segundo – uma série de reportagens sobre adoção, uma série sobre a Cracolândia e a visita ao ex-jogador Nilton Santos estão entre as matérias mais emocionantes que fiz no período. A de maior repercussão foi uma entrevista com Pedro Bial, durante o BBB9, no qual o apresentador fez uma série de revelações e inconfidências sobre o programa.

Mariana Castro, editora do Último Segundo, tem sido minha guia neste mundo da Internet. Devo a ela, e a seus jovens pupilos, muitas lições neste período. Todo jornalista sabe que notícia não tem hora para acontecer; na nova mídia, aprendi, notícia não tem hora para ser publicada.

No blog, nestes 365 dias, publiquei 446 posts. São quase 900 mil caracteres – 332 páginas no arquivo Word onde escrevo a primeira versão de cada texto. Publico abaixo links dos 20 posts mais comentados neste primeiro ano de atividade. Eles dão uma pista dos interesses dos leitores e da popularidade de certos assuntos na internet.

1. BBB9 – Globo se recusa a esclarecer dúvida sobre votação (31/03/2009) – 2.185 comentários

2. BBB9 – Globo deve explicação sobre placar da eliminação (04/03/2009)  – 1.760 comentários

3. Galvão: “O Brasil é Vettel desde criancinha”. Hã?! (02/11/2008)  – 1.606 comentários

4. Suspeitas de “acerto” pró e contra o Corinthians em 2007 (20/12/2008) – 576 comentários

5. Mentiras de Mano Menezes incomodam a imprensa (18/05/2009)  – 570 comentários

6. “Lei antifumo dissemina a doença do autoritarismo” (26/05/2009)  – 493 comentários

7. Fifa proíbe propaganda religiosa e adverte o Brasil (11/07/2009)  – 455 comentários

8. Fervor religioso nos gramados causa constrangimento (02/07/2009 – 10:49)  – 445 comentários

9. Madonna cai e a música continua igual, Será playback? (16/12/2008) – 392 comentários

10. Publicidade deforma Ronaldo (15/04/2009)  – 357 comentários

11. BBB9 – O fantasma da teoria da conspiração (05/03/2009) – 355 comentários

12. Gretchen, Caroline, Thamy, Sula: a saga da família Miranda (23/09/2008) – 317 comentários

13. Por que gostamos tanto de Ronaldo? (05/03/2009) – 307 comentários

14. Como convenci minha filha a desistir dos Jonas Brothers (23/05/2009) – 293 comentários

15. Sobre torcida, patriotismo e comentário dos leitores (03/11/2008)  – 292 comentários

16. No futebol, só a audiência importa, lamenta Tostão (08/07/2009)  – 283 comentários

17. BBB9 – Em defesa de Boninho, o estressado (16/03/2009)  – 279 comentários

18. Nem tudo é espontâneo: “CQC” também ensaia piadas (14/10/2008)  – 274 comentários

19. “A Fazenda” ensina ao “BBB”: roupa suja se lava em público (25/06/2009) – 265 comentários

20. BBB9 – Duas dúvidas: Boninho acredita em enquetes? Por que a aula de sexo anal sumiu? (02/04/2009)  – 265 comentários

Autor: - Categoria(s): Blog, Internet Tags: , , ,
06/05/2009 - 13:14

“História do Lance!”: lançamento nesta quarta-feira

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Será lançado nesta quarta-feira, em São Paulo, o livro “História do Lance! – Projeto e prática do jornalismo esportivo”, no qual descrevo o processo de criação daquele que se tornou o maior diário de esportes do país. O livro, editado com esmero pela Alameda Editorial, é um desdobramento da dissertação de mestrado que defendi em 2007 na FFLCH-USP.

Como observou Gian Oddi, na excelente resenha que escreveu no iG Esporte, Livro revela história do diário Lance! e discute o jornalismo esportivo no Brasil, “embora o texto tenha profundidade acadêmica, as deliciosas histórias colhidas pelo autor, sejam elas fruto da própria experiência no Lance! ou da pesquisa sobre o futebol e a imprensa esportiva no Brasil, dão ao estudo um caráter jornalístico que acaba por tornar a leitura do livro muito saborosa”.

Em entrevista à jornalista Ana Paula Sousa, publicada em seu blog, Futebol e jornalismo: uma relação muito delicada, eu detalho alguns aspectos do trabalho, em particular a recorrência, ao longo de 110 anos, de alguns mesmo problemas e vícios do jornalismo esportivo, como bairrismo, sensacionalismo e suspeitas de corrupção.

Aproveito este post para convidar os leitores para o lançamento, no bar Canto Madalena (rua Medeiros de Albuquerque, 471, Vila Madalena, a partir das 19hs) e informar que o livro será lançado no Rio de Janeiro, no próximo dia 13 de maio.

Também aproveito para agradecer de público aos muitos sites, blogs, revistas e jornais que trouxeram notícias, nos últimos dias, sobre este lançamento. Em particular, meu agradecimento ao iG, à CartaCapital (e também via o blog de Camila Alam),  ao blog de Mauricio Noriega, ao blog do Menon, à coluna de Mônica Bergamo, na “Folha”, ao blog do Juca Kfouri, ao Terra Magazine, de Bob Fernandes, ao Caio Maia, da revista “Trivela”, ao Ubiratan Leal, do “Balípodo”, Observatório da Imprensa, Loucos por Futebol (ESPN), Jornalistas & Cia e Comunique-se

Autor: - Categoria(s): Cultura, jornalismo Tags: , , , , , , , , , , , ,
13/12/2008 - 09:32

Adoção no Brasil: uma semana de emoções fortes

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Como muitos jornalistas da minha geração, formado em redações que defendem uma espécie de ascetismo como postura necessária à prática profissional, não tenho o hábito de escrever na primeira pessoa e cultivo o máximo possível de distanciamento das fontes. Neste post, porém, vou escrever abertamente na primeira pessoa e vou confessar uma forte emoção que senti no meio da apuração de uma matéria.

No dia 1º de dezembro, se não me engano, minha editora no Último Segundo, a ligadíssima Mariana Castro, me provocou: “Você não gostaria de fazer uma matéria sobre adoção?” Pensei: “Adoção??? Por quê?” Ela me explicou que o Brasil começou a montar este ano um cadastro nacional de adoção, no esforço de tornar mais rápido e eficiente os processos no País. Era novidade para mim.

Achei a idéia interessante, mas não tinha a menor idéia por onde começar. Fiz, então, o que qualquer repórter faz nestas horas. Liguei para uma pessoa que entende do assunto. Por sorte, sou amigo há muitos anos da apresentadora Astrid Fontenelle e sabia que ela havia adotado uma criança recentemente. Telefonei pensando que ela poderia me dar algumas informações sobre o processo de adoção, mas ao ouvir a sua história fui imediatamente fisgado pela sua história – e resolvi incluí-la na reportagem.

Por conta de uma dica da Astrid, procurei a Vara de Infância de Santo Amaro, a maior de São Paulo. Telefonei para o local e pedi para falar com algum assessor. Para minha surpresa, em menos de um minuto já estava conversando com o juiz Iasin Issa Ahmed, que me convidou a visitá-lo no dia seguinte.

Cheguei à Vara de Infância 20 minutos antes da hora combinada, o que me permitiu acompanhar, da ante-sala do juiz, um caso dramático que se desenrolava ali, naquele instante. Um garoto de 7 anos aguardava, sentado no sofá, ao meu lado, enquanto o juiz, na outra sala, procurava convencer a sua avó, guardiã do garoto, a também cuidar de seus dois irmãos menores.

Jandira, a zelosa secretária do juiz, tentava ocupar o menino com bichos de pelúcia, material para desenho e balas, no esforço de evitar que ele ouvisse o que se discutia lá dentro. Na falta de pai, mãe ou outro responsável, os dois irmãos seriam dados para adoção. O juiz, ao final, conseguiu localizar um parente distante em Vitória da Conquista, que topou ficar com a guarda das duas crianças.

Por mais de três horas, em seguida, entrevistei o juiz Iasin, a psicóloga Célia Regina Cardoso e a assistente social Solange Rolo. Ouvi histórias inacreditáveis, de devolução de crianças rejeitadas pelos pais adotivos e que voltaram a morar em abrigos. De crianças conscientes da situação de abandono que vivem e que pedem para ser adotadas. De irmãos separados por falta de candidatos a adotá-los em conjunto. E muito mais tristeza…

Até que o juiz Iasin contou a história da menina de 6 anos, largada em um abrigo, depois de ter morado dentro de uma Kombi com a mãe viciada em drogas. Em uma visita ao abrigo, a menina perguntou ao juiz: “Eu vou para a Itália?” Iasin se encantou por ela e cuidou pessoalmente de achar candidatos a adotá-la. Mas antes lhe disse: “Eu vou escolher os pais para você, mas você tem o direito de dizer que não gostou”.

Nessa hora, me dei conta, estava com os olhos cheios de lágrimas. Tentei disfarçar, prossegui com as minhas perguntas, anotei as respostas e fomos em frente. Mas estava, definitivamente, fascinado pelo assunto. O resultado, a reportagem “Uma tarde na Vara de Infância: histórias de crianças adotadas, recusadas, devolvidas e obtidas ilegalmente”, acho que trai a emoção que senti lá. Publicada na segunda-feira, 8 de dezembro, acabou sendo uma das reportagens mais lidas da semana no iG.

Ao longo destes dias, publiquei outros quatro textos sobre o assunto. Para quem tenha interesse, mas não acompanhou, aqui vão os links:
1. Adoção a estrangeiros pode levar até dois anos 
2. Solteira, 47 anos, mãe de uma criança de 40 dias
3. “Criança não é televisão, que você compra, não gosta e depois devolve”, diz Marcelo Antony 
4. Leitores relatam dramas e alegrias do mundo da adoção

A série, longe de esgotar o assunto, foi uma oportunidade de tratar de um tema muito delicado, complexo e polêmico. Pelas reações dos leitores, mesmo os que manifestaram os seus preconceitos, pude observar que as reportagens contribuíram, de alguma forma, para desarmar alguns espíritos contra a adoção e expor as muitas dificuldades envolvidas no processo. E, particularmente, a série me ajudou a tomar contato com um mundo que eu conhecia pouco e que me tocou muito.

Autor: - Categoria(s): Brasil Tags: , ,
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