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29/10/2009 - 16:01

Histórias de uma “videocracia” chamada Itália

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Mostra SeloUm documentário que explica a Itália de Berlusconi ou, ainda, um filme que mostra como o império de mídia do empresário ajudou a idiotizar o país e a entronizá-lo no poder. Essas parecem ser as ambições de “Videocracia”, de Erik Gandini, que tem exibição nesta quinta-feira na Mostra. Ao menos, o filme tem sido apresentado dessa forma, o que é um pouco demais para ele.

“Videocracia” trata de três temas que o brasileiro conhece bem: o mundo da televisão de baixas calorias, o circo de subcelebridades que gravita em torno desse universo e o sonho maluco, compartilhado por milhões de pessoas, de ficar famoso a qualquer preço.

videocracia cartaz 3Silvio Berlusconi é o quarto elemento desta história – e, felizmente, personagem igual a esse não há por aqui. Crooner em cruzeiros marítimos na juventude, empresário de sucesso na vida adulta, ergueu um império de comunicação, hoje formado por três emissoras de televisão, revistas, jornais, editora de livros etc. Também é dono do Milan, um dos principais times da Itália.

Ao aventurar-se na política, na década de 90, Berlusconi criou o próprio partido e chegou ao cargo de primeiro-ministro da Itália por três vezes, entre 1994 e 1995, entre 2001 e 2006 e, agora, desde 2008. No posto mais alto do governo, Berlusconi controla, além das suas emissoras privadas, os três canais públicos (o sistema RAI), o que faz dele “dono” de 90% dos meios de comunicação do país.

“Videocracia” apresenta três personagens fascinantes e descreve as suas aventuras nesta Itália de Berlusconi. O primeiro é um mecânico chamado Riccardo, cujo único sonho na vida é ser famoso. Suas armas para isso são o físico, que cultua em rigorosas sessões de musculação, e a voz, que usa para imitar cantores pop. Riccardo acha que tem chances de explodir na televisão italiana como uma rara mistura de Van Damme com Ricky Martin.

videocracia 2A câmera de Erik Gandini acompanha o patético Riccardo em seu esforço de conseguir aparecer num programa qualquer de auditório. Além da natural falta de talento, seu objetivo é também comprometido pela preferência que esses programas dão a mulheres bonitas, que se dispõem a mostrar o corpo e rebolar no palco.

O segundo personagem de “Videocracia” é Lele Mora. Ex-cabeleireiro, é hoje empresário e agente de artistas e celebridades de segunda categoria. Fã confesso de Mussolini, é amigo de Berlusconi. Lele Mora já foi condenado mais de uma vez por fraude fiscal, mas exibe um sorriso de orelha a orelha no filme.

O empresário é filmado em sua mansão na Sardenha, cercado de atores e ex-participantes do Big Brother italiano, quase todos sem camisa, Ali ele explica como a sua intuição o ajuda a descobrir o talento escondido de figuras anônimas e como faz para transformá-las em celebridades.

O terceiro, e último, personagem do filme chama-se Fabrizio Corona. Empresário, é dono de uma agência de fotógrafos, especializada em obter flagrantes indiscretos de celebridades. “Vídeocracia” explica que antes de vender suas fotos para as revistas de fofocas, Corona prefere oferecê-las para os personagens fotografados. Ou seja, a vítima dos paparazzi tem a chance de pagar pelas imagens, de maneira que elas nunca sejam exibidas.

Parece chantagem e extorsão, e a Justiça italiano já entendeu, em mais de uma ocasião, que é isso mesmo. Corona responde a diversos processos e já passou uma temporada de 80 dias na cadeia. Personagem tão repugnante quanto fascinante, fala de si e do seu trabalho com enorme orgulho. É amigo de Lele Mora, também.

Berlusconi e suas emissoras de tevê compõem uma espécie de pano de fundo para este mundo cão e cafona. Difícil saber se a Itália teria chegado ao ponto em que chegou hoje se o empresário tivesse se mantido fora da política. Mas é evidente que esse duplo papel que Berlusconi exerce ajuda a passar a impressão de que o país virou um grande programa de auditório. Ao menos é isso que “Videocracia” nos faz pensar.

Em tempo: Gandini é italiano, mas vive na Suécia. Um dos co-produtores do filme é a Zentropa, que vem a ser a produtora do dinamarquês Lars Von Trier.

“Vídeocracia” tem mais duas sessões: nesta quinta-feira, às 22h40, no Espaço Unibanco Pompéia, e domingo (1/1), às 16h20, na Cinemateca. Mais informações no site da Mostra.

Autor: - Categoria(s): Cultura, televisão Tags: , , , ,
20/06/2009 - 14:17

O que o goleiro Buffon falou de errado?

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Provocou grande espanto e, mesmo, alguma revolta  no ambiente da seleção brasileira uma declaração do goleiro Buffon, da Itália: “Podemos vencer o Brasil, depois a Espanha na semifinal e novamente o Brasil na final”. O que há de errado na frase deste campeão do mundo, titular da sua seleção há anos?

No mundo do futebol reina um código próprio, com regras, preceitos morais – e alguns clichês – muito peculiares. Um deles é a idéia de que deve-se sempre “respeitar o adversário”. Pode ser Brasil contra Nova Zelândia, Corinthians contra time de casados e solteiros, o blábláblá nas entrevistas é sempre o mesmo. “Temos que respeitar o adversário”.

O oposto de “respeitar o adversário”, na cabeça dos boleiros, é “menosprezar” o rival. Ou seja, falar que o seu time é favorito ou tem tudo para vencer implica, nesta lógica, considerar abertamente que o seu adversário é inferior a você.

Pior que isso, jogadores e técnicos acreditam que uma frase que “desrespeite” o adversário tem a força de servir como motivação em campo. Quantas vezes você já não ouviu, depois de uma partida em que o time “menor” venceu o “grande”, algum jogador dizer que encontrou forças para se superar em campo só porque o craque adversário disse, na véspera do jogo, que era favorito para vencer. Você acredita nessa bobagem?

Voltando a Buffon, o goleiro não disse que considera uma moleza a Itália ganhar do Brasil. Ele apenas deixou claro que vê o adversário como um igual e, mais que isso, sente-se em condições de vencê-lo. Por que a franqueza incomoda tanto no futebol?

PS. Falando em Copa das Confederações, compartilho com o leitor que ainda não viu uma entrevista de Joel Santana. técnico da África do Sul, que caiu no You Tube e está fazendo muito sucesso.

Autor: - Categoria(s): Esporte Tags: , , , ,
26/11/2008 - 14:48

Sexo e política: as mulheres no governo Berlusconi

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Como recebo a revista sempre com atraso, só faço agora este comentário sobre o artigo “Girls! Girls! Girls!”, de Alexander Stille, publicado na “New Yorker” com data de capa de 3 de novembro. Trata-se de um texto muito bem-humorado, mas devastador, sobre o que aconteceu com a Itália desde que o primeiro-ministro Silvio Berlusconi assumiu o poder pela primeira vez, há quase 15 anos (apenas um resumo está aberto no site da revista).

Stille descreve como Berlusconi cultiva, a seu favor, a imagem de bon-vivant, conquistador e cafajeste. Com piadas, gestos ambíguos e aquele famoso sorriso de estátua, fala abertamente sobre sexo e não esconde que já fez cirurgia plástica e implante de cabelos.

No artigo, Stille mostra como Berlusconi vem se cercando, no Parlamento e no governo, de mulheres que trabalharam em suas emissoras de tevê – algumas como garotas de palco. A mais famosa é Mara Carfagna (à esquerda), candidata derrotada a Miss Itália e ex-showgirl num programa de tevê, nomeada ministra da Igualdade das Oportunidades no novo governo. A humorista Sabina Guzzanti está sendo processada pela “mais bonita ministra do mundo”, nas palavras de um correligionário de Carfagna, depois de ter dito: “Não me importa a vida sexual do Berlusconi. Mas você não pode fazer alguém ministro da Igualdade das Oportunidades só porque ela chupou o seu pau”.

Outra beldade que passou pelos programas de tevê de Berlusconi e hoje está no governo é a ruiva Michela Vittoria Brambilla (acima). Também ex-candidata a Miss Itália, Michela apresentava um programa chamado “Mistérios da Noite”, focado na vida noturna de cidades ao redor do mundo. Hoje ela é vice-ministra do Turismo. Segundo Stille, este cargo era o segundo na sua preferência. Como gosta de animais, ela sonhava ter sido nomeada ministra do Meio Ambiente.

Stille livra a cara de uma única mulher que faz parte do governo Berlusconi. Mariastella Gelmini (à esquerda) não apenas nunca trabalhou nas emissoras do primeiro-ministro, como ainda tem alguma experiência política. Ela é a atual ministra da Educação.

Diferente é a situação de Deborah Bergamini. Assistente pessoal de Berlusconi no seu conglomerado de mídia, Bergamini (abaixo) foi nomeada diretora de marketing da RAI. O conflito de interesses nesse caso é óbvio, já que as emissoras de tevê estatais também são controladas por Berlusconi, enquanto primeiro-ministro. Gravações feitas há alguns anos mostraram que Bergamini, trabalhando na RAI, defendia os interesses da Mediaset, do patrão. Afastada da RAI, com uma gorda indenização, hoje ela é deputada da coalizão governamental.
 
Por fim, Stille conta a história de Virginia Sanjust di Teulada (abaixo), jornalista do grupo de mídia de Berlusconi. Há cinco anos, depois de assistir uma reportagem da moça, o patrão, encantado, mandou um buque de flores. Agradecida, ela respondeu com um cartão, no qual registrou o número de seu telefone. Convidada a almoçar com o primeiro-ministro, foi chamada a prestar uma consultoria, regiamente paga, ao governo.

O escândalo se tornou público graças às revelações do então marido, logo ex, de Sanjust di Teulada, Federico Armati. A jovem jornalista também ganhou um programa na RAI e Armati, que trabalhava para serviços de inteligência do governo, foi transferido e, posteriormente, demitido.

Stille encerra sua crônica sexual sobre a Itália de Berlusconi lembrando que, no início dos anos 90, o PIB da Itália era 15% superior ao da Grã-Bretanha. O fato era motivo de orgulho no país. Hoje, a economia italiana é 23% menor que a britânica.

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