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23/10/2009 - 08:23

Maradona e Cantona, gênios imperfeitos

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Mostra SeloCada um à sua maneira, Diego Maradona e Eric Cantona encarnaram o mais sedutor dos tipos que rondam o mundo do futebol – o do craque magnífico e indomável, tanto dentro quanto fora de campo. (Romário é o brasileiro que primeiro me ocorre quando penso em jogadores deste quilate com este perfil.)

Imprevisíveis com a bola no pé, mas também com a língua, Maradona e Cantona (e também Romário) sempre falaram o que achavam que deviam falar, e não o que os dirigentes ou assessores programavam. Profissionais, mas não fantoches, exigiam respeito – de colegas, dirigentes, jornalistas e torcedores.

Muitas vezes, perderam o controle da situação e, literalmente, meteram os pés pelas mãos. A carreira de Cantona sofreu um baque quando agrediu um torcedor que o ofendeu depois de ser expulso de campo. Ficou dez meses suspenso. (Romário também agrediu torcedores que o ofenderam durante um treinamento, mas não foi punido.)

Maradona não apenas fez um gol com a mão contra o maior inimigo da Argentina em 1986, a Inglaterra, como ainda reconheceu o “crime” e tripudiou: “Foi a mão de Deus”. Depois, violou a mais sagrada das regras do esporte: utilizou drogas (cocaína) e ainda foi pego jogando dopado.

maradona kusturicaChamado de “Deus”, Maradona é idolatrado em toda a Argentina e em Nápoles, na Itália. Conquistou “sozinho” a Copa de 86 e deu à equipe italiana os dois únicos títulos da Série A de sua história. Chamado de “rei”, Cantona é herói entre os torcedores do Manchester United. O time não vencia o campeonato inglês desde 1967 quando ele chegou, em 1991, dando início a uma temporada de glórias e conquistas.

Maradona e Cantona são as estrelas indiscutíveis deste primeiro fim de semana da 33ª Mostra de Cinema de São Paulo. O primeiro é objeto de um documentário do sérvio Emir Kusturica, que o retrata sem nenhum distanciamento, mas com grande energia. O segundo atua como ator, no papel de si mesmo, num divertido filme do inglês Ken Loach.

Como escrevi no Ultimo Segundo (Filme de Kusturica ajuda a entender a Argentina de Maradona), além das dezenas de gols e jogadas que exibe, há momentos impressionantes no filme sobre o craque argentino – o culto na Igreja Maradoniana, a confissão que o ex-jogador faz sobre os efeitos da cocaína e a sua relação com Fidel Castro, entre outros.

cantonaJá o craque francês, cujo filme que protagoniza abriu a Mostra nesta quinta-feira, é igualmente homenageado com a generosa exibição do seu talento como jogador, relembrado em várias passagens, e expõe também os seus curiosos conhecimentos filosóficos. Com real habilidade para interpretação, como escrevi, Cantona distribui pílulas de sabedoria a um carteiro infeliz, ajudando-o a superar os seus problemas com a ex-mulher e com os enteados.

Numa passagem já famosa de “Maradona”, o craque afirma que, não fosse pela cocaína, teria sido ainda maior do que foi como jogador. Ou seja, teria sido Deus de fato. Em outro momento, o dono de uma casa noturna de Buenos Aires diz que as go-go girls reclamam quando a tevê exibe antigos gols de Maradona porque os frequentadores do inferninho preferem ver os gols aos shows das dançarinas seminuas.

Já Cantona, em diálogo com Eric, o carteiro que ajuda, ensina que o momento que mais aprecia em sua carreira como jogador não é nenhum gol em especial, mas um passe perfeito que deu, propiciando o gol de um colega. Pode parecer filosofia de botequim, mas o passe foi realmente maravilhoso.

Entre esta sexta-feira e domingo, há três chances de ver ambos os filmes. “À Procura de Eric” passa hoje, às 16h40, no Unibanco Artplex; sábado, às 23h50, no Cinema da Vila; e domingo, às 15h50, no Cine Bombril. “Maradona” será exibido hoje, às 21h30, no Cine Bombril; sábado, às 12h, no Reserva Cultural; e domingo, às 22h, no Cinemark, Shopping Eldorado. Ambos os filmes serão exibidos no circuito comercial, depois da Mostra.

Autor: - Categoria(s): Blog, Crônica, Esporte Tags: , , , ,
15/10/2009 - 19:23

Meu personagem da semana: Diego “Dios” Maradona

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Copiando descaradamente o título da coluna que Nelson Rodrigues assinou em “Manchete Esportiva”, volto a falar de Maradona no blog. Assisti nesta quinta-feira ao documentário que Emir Kusturica fez sobre o maior jogador da história da Argentina e, acho, entendi melhor as reações de Maradona à pressão que vem enfrentando no comando da seleção da Argentina.

“Maradona” foi exibido no Festival do Rio e está programado para a Mostra de Cinema de São Paulo. Sua estréia comercial está prevista para novembro. Sem nenhum distanciamento, como escrevi no Último Segundo, Kusturica trata Maradona como Deus e mostra que essa idolatria se espalha de Buenos Aires a Nápoles.

De certa forma, o próprio personagem se vê como uma figura mítica, cuja único tropeço na vida foi a cocaína. Não fosse a dependência da droga, que quase o matou, Maradona sugere que teria sido o maior jogador da história, maior que Pelé ou qualquer outro: “Fica um gosto amargo na boca. Eu teria sido muito maior que sou.”

Dias atrás, já havia falado sobre Maradona aqui no blog: que outro técnico seria capaz de dar um “peixinho” para comemorar a vitória de seu time, depois de um gol aos 48 minutos do segundo tempo? Só um técnico sem a menor vocação para este ofício, mas com um carisma extraordiário, uma energia única e o coração a mil, como se ainda estivesse em campo, jogando.

Ao reagir violentamente contra a imprensa ao final da partida que classificou a Argentina para a Copa de 2010, Maradona causou um mal estar que pode complicar ainda mais a sua situação como técnico da seleção. O seu destino está nas mãos de Julio Grondona, cartola que há 30 anos comanda o futebol da Argentina e é um mestre na arte de lidar com batatas quentes.

Sei que os números de Maradona à frente da seleção são péssimos, mas gostaria, em nome da diversão, de vê-lo dirigindo a Argentina na Copa.

Autor: - Categoria(s): Cultura, Esporte Tags: , ,
11/10/2009 - 12:21

Maradona reinventa ofício de técnico com “peixinho”

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Para tristeza de quem gosta apenas do espetáculo em campo, da bola rolando, do drible e do gol, os técnicos de futebol ganharam nos últimos anos o status de estrelas. Tornaram-se figuras centrais do negócio, capazes de aplicar “nós táticos”, virar jogos impossíveis, fazer substituições genais, além de terem a força de motivar times derrotados e transmitir mensagens geniais.

Pense no Brasil. Pense em Wanderley Luxemburgo, Mano Menezes e Muricy Ramalho. Ou em qualquer técnico da sua preferência, aqui ou no exterior. Cada um a seu jeito, todos eles são, toda semana, tão ou mais protagonistas das partidas que seus clubes disputam do que Ronaldo, Diego Souza, Kaká etc etc. O que os técnicos dizem ou deixam de dizer, o seu bom ou mau humor, o que escrevem no Twitter ou no blog, acompanhamos tudo que fazem como se fossem realmente estrelas do espetáculo.

Para piorar, o protagonismo dos técnicos levou grande parte destes profissionais, como ocorre com toda figura no palco, a comporem personagens. Difícil encontrar hoje um técnico que soe espontâneo, que diga o que realmente pensa, que faça o que lhe dá na telha, que vista a roupa que gostaria… Com a ajuda de assessores de imprensa e de imagem, os técnicos se tornaram, realmente, astros de primeira grandeza, protagonistas, do mundo do futebol.

Não estou aqui dizendo que os técnicos são falsos, mas que agem de acordo com determinados roteiros, que construíram e seguem, para o bem da imagem deles. Tornaram-se previsíveis. Passamos a esperar o novo “nó tático” do “professor”, ou a nova “patada”, ou a nova “bronca” como quem espera um gol do craque do time. E sabemos que ela virá, mais cedo ou mais tarde, porque os técnicos viraram personagens de si mesmos.

Maradona iG EFETudo isso para falar de um técnico que parece não ter a menor vocação para ser técnico – Diego “Dios” Maradona, maior jogador da história da Argentina, hoje no palco à frente da cambaleante seleção de seu país.

Não vou aqui repetir os números e estatísticas que comprovam o desastre de sua gestão no comando da seleção. É possivelmente o pior e mais confuso técnico que o país já teve, nos últimos 40 anos. O que me chama a atenção é o fato de agir e se comportar como um jogador, e não como técnico.

Alguém poderá dizer que ele também está compondo um personagem. Que tudo não passa de encenação. Não é impossível. Mas mesmo que seja um personagem, é fantástico, porque é um personagem que vai totalmente contra a maré, contra essa onda “científica” que os “professores” tentam nos fazer engolir sobre o futebol “moderno”.

O “peixinho” que Maradona deu neste sábado à noite, na beira do gramado, depois do gol de “San” Palermo contra o Peru, aos 48 minutos do segundo tempo, impedido, sob chuva e vento, é uma dessas cenas que ficarão para a história do futebol.

No futuro, Maradona será lembrado pelo dois gols que fez contra a Inglaterra na Copa de 86 (pelo que eles ilustram da sua genialidade e malandragem em campo) e pelo “peixinho” no Monumental de Nunez. Este último, como exemplo da atitude de um técnico de futebol que reinventou o ofício.

Crédito da foto: EFE

Autor: - Categoria(s): Esporte Tags: , , , , ,
15/07/2009 - 11:58

Por que Tevez trocou uma Ferrari por um Fusca?

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Os personagens desta história são Carlos Tevez, craque argentino, sir Alex Fergunson, técnico do Manchester United, Kia Joorabchian, empresário do jogador, xeque Sulaiman Al-Fahim, presidente do Manchester City, e Maradona, técnico da seleção da Argentina.

O argumento central da história é: O que leva um jogador da qualidade de Tevez a trocar um dos três times mais tradicionais e vencedores do mundo por uma equipe mediana, cujo último título importante data de 1976 e é comandada por um aventureiro bilionário?

A última vez que um jogador do Manchester United teve a coragem de cruzar a cidade para jogar no rival ocorreu em 1999. Tevez tratou de esclarecer, ao se apresentar no City nesta segunda-feira, 13, que ama os torcedores do United. “Vou sempre guardar o carinho deles no coração”, disse. “Eu não fiquei porque Alex Ferguson e David Gill (diretor da equipe) não quiseram”, disse.

Uma das explicações que Tevez deu para a mudança, antes dela ocorrer, foi a insatisfação de não ser titular no United. Essa seria a melhor explicação, se for verdade. O craque está trocando uma Ferrari por um Fusca porque tem ganas de jogar, não aguenta sentar no banco. Jogando, tem mais chances de ir à Copa e, até quem sabe, conquistar a vaga de titular na seleção de Maradona.

Mas temo que essa explicação não se sustente integralmente. Num negócio intermediado pelo homem que foi gerente da MSI no Corinthians, é difícil imaginar que a questão central não esteja relacionada a dinheiro. Tevez assinou com o City um contrato de quatro anos, milionário, num valor muito acima do que recebia no United.

Alguém pode se perguntar: qual é o interesse desse assunto? Aprecio muito Tevez, sua forma de jogar. Também admiro a sua história, a sua trajetória, e acho que a sua passagem pelo Corinthians foi muito interessante. Guardo dele a imagem de um jogador que seria, de fato, capaz de trocar de time – mesmo indo para uma equipe pior – apenas pelo prazer de jogar, pela possibilidade de ser titular. Por mais que me esforce, porém, acho difícil acreditar que isso tenha acontecido.

Crédito da foto: Reuters

Autor: - Categoria(s): Esporte Tags: , , , ,
22/05/2009 - 08:27

Ronaldinho Gaúcho e Riquelme ainda têm futuro?

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No mesmo dia em que Ronaldinho Gaúcho perdeu definitivamente o status de craque intocável, e virou apenas mais um numa lista de 40 nomes cogitados por Dunga, Riquelme foi protagonista do maior fracasso do Boca Juniors nos últimos dez anos, ao ser eliminado nas oitavas-de-final da Libertadores em plena Bombonera.

O que aconteceu com Ronaldinho Gaúcho? Duas vezes (2004 e 2005) eleito melhor jogador do mundo, o craque está numa fase descendente já longa, de pelo menos dois anos – o Barcelona melhorou depois de sua saída e no Milan não encontrou lugar no time titular, para não falar das suas atuações decepcionantes na seleção.

Riquelme abriu mão de jogar na seleção, em conflito aberto com Maradona, e é responsabilizado pelo atual racha na equipe do Boca – não se dá com a turma de Palermo. Com problemas na sola do pé direito, ficou 40 dias sem jogar, antes de voltar a campo nesta quinta-feira, contra o Defensor Sporting, do Uruguai. Não é de se espantar que, depois desse longo período de inatividade, Riquelme não tenha jogado nada.

As duas notícias desta quinta-feira colocam nuvens negras sobre as cabeças de Ronaldinho e Riquelme. O que será do craque brasileiro agora? Aos 29 anos, sem lugar garantido na seleção e no Milan, precisa se reencontrar urgentemente com o futebol caso ainda sonhe em disputar uma Copa do Mundo.

E Riquelme, próximo dos 31 anos, o que o futuro reserva ao craque? Prevê-se um desmonte do atual Boca, a começar pelo técnico Carlos Ischia, ex-assistente de Carlos Bianchi, que dificilmente resistirá à eliminação do time na Copa, como dizem os argentinos. Riquelme vai sobreviver? 
 
Na Bolsa de Valores do Futebol, quem ainda não havia se desfeito das ações de Ronaldinho Gaúcho e Riquelme está agora com dois micos na mão. O que não quer dizer que daqui a três ou seis meses essas ações voltem a se valorizar e dar muito lucro a quem apostou neles. Espero que sim.

Autor: - Categoria(s): Esporte Tags: , , , , , , ,
02/11/2008 - 12:50

Ugo Giorgetti desafia o lugar-comum sobre Maradona

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O bom senso recomenda entender a escolha do novo técnico da seleção argentina como um gesto de lunáticos desesperados, fadado ao fracasso e ao ridículo. O currículo e o histórico de Maradona justificam as análises, quase consensuais, que reprovam e mesmo ridicularizam a opção dos cartolas argentinos.

O cineasta Ugo Giorgetti, porém, não escreve sobre futebol para repetir lugares comuns.  Sempre aos domingos, no “Estadão”, publica as suas sábias reflexões, às vezes temperadas de nostalgia, sobre um universo que conhece muito bem – como se pode ver nos seus dois filmes sobre o assunto (“Boleiros”). Giorgetti não joga para a torcida, nem parece preocupado em agradar ou desagradar gregos ou troianos.

A sua reflexão sobre Maradona, neste domingo, é exemplar. Reproduzo abaixo um trecho do artigo:

Essa afronta à sensatez me agrada muitíssimo, até para contrariar noções preconcebidas sobre os argentinos. Ao contrário do que se diz, eles estão sempre abertos à emoção, ao inexplicável, cheios de sentimentos contraditórios, muito distantes do mundo das estatísticas e dos estudos dos administradores de empresas do futebol. Freqüentemente a Argentina vem ao encontro de seu povo. E, se o povo reprova em massa a indicação de Maradona, é porque o tomam por um deles, e não se vêm a si mesmos como técnicos da seleção. Não para ganhar títulos. Não é com loucos e desajustados que se ganham as copas. No fundo, porém, devem estar orgulhosos. Ousaram colocar seu ídolo maior de novo em campo, e esperam, como tantas vezes esperaram na história argentina, que o passado glorioso ressurja. Por que não? Por que confiar só nos fatos e na feroz realidade dos números?

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