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21/08/2008 - 12:39

Saldanha se envergonharia do que disse sobre futebol feminino

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João Saldanha é um dos meus heróis. O seu papel na denúncia das mazelas do futebol brasileiro, entre as décadas de 60 e 80, não encontra paralelo no jornalismo brasileiro. Enxergou muito à frente de seus colegas ao escrever insistentemente sobre os problemas estruturais do esporte – resultado de uma mistura de amadorismo, incompetência e má fé, de políticos, dirigentes esportivos e jornalistas.

Saldanha não teve visão, porém, para perceber o potencial do futebol feminino. Certa vez, numa palestra para estudantes universitários, o jornalista foi indagado sobre o que achava da modalidade. “Sou contra”, respondeu. A história é relatada por Sergio Cabral, na introdução de “Vida que Segue”, coletânea que reúne os textos de Saldanha sobre as Copas de 66 e 70. Escreve Cabral:

As moças manifestaram surpresa e decepção. João Saldanha, um cara sem preconceitos, como poderia ser contrário ao futebol feminino? Mas ele explicou: “O sujeito tem um filho, que leva a namorada para conhecê-lo. O pai faz a pergunta clássica: ´Você trabalha ou estuda?’ ‘Trabalho’, ela responde. ‘Em quê?’, quer saber o velho. ‘Sou zagueira do Bangu.’” Conclui Saldanha: “Pega mal, vocês não acham?”

Saldanha morreu em 1990, durante a cobertura da Copa na Itália. Não teve a oportunidade de assistir ao desenvolvimento do futebol feminino. Se tivesse assistido a disputa da medalha de ouro nos Jogos de Pequim, certamente, se envergonharia do que disse. A partida entre Brasil e Estados Unidos teve de tudo: estratégia, técnica, arte, emoção, acidentes, erros – tudo que faz do futebol um esporte especial, único.

Crédito da foto: AFP

Autor: - Categoria(s): Esporte Tags: , , ,
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